11 maio 2015

O rei está nu

Em campo, um time nervoso, afobado, errando o que podia e o que não podia. Vem mais um ataque do adversário que, outrora saco de pancadas, virou carrasco. A bola chega, como que por acaso, aos pés de um pobre diabo. Gol. Parte do estádio irrompe em um grito que merece ser estudado: "Ei, Mancha, vai tomar no cu."

Por quê?

A resposta: porque a organizada, em protesto contra o vigente processo de elitização, passara os 90 minutos calada, com cada um de seus integrantes sentado no devido lugar, adotando exatamente o comportamento que é ditado por muitos dos que partiram para a ofensa: o de uma plateia no teatro.

É isso, sem tirar nem por.

Mas é necessário avançar no debate.

O que, afinal, motivou a voracidade daqueles que frequentam os setores centrais e os camarotes do nosso novo e moderno estádio?

Apresento algumas hipóteses e deixo aberto o espaço para que os leitores escolham a mais palatável. Fiquem à vontade.

(  ) A - Foi uma espécie de chilique, coisa momentânea, compreensível se levarmos em conta o autor do gol que nos colocou em desvantagem no placar. Depois daquilo, alguém haveria de pagar o pato e, convenhamos, não poderia existir alvo melhor do que uma torcida organizada. Afinal, é muito cômodo se posicionar contra "aquele bando de bandidos e marginais travestidos de torcedores".

(  ) B - A reação foi assim uma espécie de manifestação neoliberal e em defesa da elitização no futebol. "Quem esses caras pensam que são para protestar contra #deusnobre, o benevolente homem de negócios [???] que transformou o Palmeiras em uma potência dentro e fora de campo?". "Tem que aumentar ainda mais o preço do ingresso para conseguirmos expulsar esses vândalos". "Se você for Avanti 5 estrelas, tiver Itaucard Platinum e for um dos 500 primeiros, consegue pagar um valor baixo pelo ingresso; essa gente precisa parar de reclamar sem motivo". "Não tem dinheiro? Então fique em casa e veja pela TV, seu pobre!"

(  ) C - Foi, de certo modo, um despertar de consciência, com muita gente se dando conta da verdade inesgotável: sem a força da organizada, o estádio não vibra. Mas, afinal, não há certa contradição aqui? Vejamos: os caras têm se esforçado tanto para transformar nossa casa em um teatro (com preços obscenos, com vergonhosas micagens no telão e com um presidente que deseja impor a torcida única à força) e, quando conseguem, xingam logo aqueles que permitiram que isso acontecesse? Ou, posto de outro modo, seria a revolta dos que se sentiram desnudados com a inoperância do restante do estádio? Aí, ficando evidente a incapacidade de empurrar o time dentro de campo por conta própria, o que fazem é ofender os que jogaram luz sobre a apatia generalizada?

(  ) D - Nobre, seus asseclas e todos aqueles que, palmeirenses ou não, atuam em nome da agenda elitista podem ter ido tão longe na causa que já há quem se porte exatamente conforme o esperado: são consumidores e não torcedores. Se o cidadão está pagando (caro) pelo acesso ao estádio, entende que está contratando um pacote que deve incluir, entre outros mimos, um bando de selvagens a pular e a cantar incessantemente para que ele, sentado confortavelmente em sua cadeira numerada, possa desfrutar do espetáculo. É como o sujeito que vai ao zoológico e resolve xingar o leão porque ele não apareceu naquele dia. "Eu paguei o combo completo! Por que esses animais não vão cantar hoje?". Não demora muito e alguém vai acionar o Procon porque a organizada não fez festa.

E então, caro leitor, que alternativa melhor explica o xingamento entoado por parcelas mais abastadas do público em reação ao protesto da torcida organizada?

De minha parte, vejo uma combinação de todos esses fatores, uns mais do que outros.

O coro de "Ei, Mancha, vai tomar no cu" ressalta a fragilidade por trás de tudo o que pensam os defensores da política elitista e excludente do senhor Paulo Nobre. Porque, vejam os senhores, a entidade Mancha Verde foi atacada exatamente por não desempenhar a função que costuma exercer em todos os jogos e em qualquer estádio, mesmo contra a vontade do mandatário que aí está. A entidade Mancha Verde foi atacada por se comportar passivamente, como ocorre em boa parte do estádio, e por seguir exatamente o padrão de comportamento que se espera nessas 'novas arenas'.

O coro de "Ei, Mancha, vai tomar no cu" acabou por validar o protesto, ao expor uma torcida rachada e que, muito pela política excludente da gestão que aí está, já não tem mais a mesma força de antes. Se o que queria a Mancha era "colocar em questão o papel importante das torcidas organizadas e o quanto elas são fundamentais para transformar o estádio em um caldeirão", então o objetivo foi plenamente alcançado.

O rei está nu e a contradição, colocada: os defensores da elitização praticam preços de teatro e querem festa de arquibancada; tentam impor um novo padrão de comportamento e exigem incentivo de uma torcida que se vê mais excluída do estádio a cada dia que passa.

Decidam-se, pois. É uma coisa ou outra, e o jogo deste sábado representa um marco neste embate entre um Palmeiras popular, aberto a todos e com torcida em todo o país e um Palmeiras excludente, idealizado para os que têm muito dinheiro e se preocupam mais em aparecer no telão e em aplaudir a renda.

Por ora, fica uma triste constatação: será muito difícil esquecer o dia em que, na nossa casa, atacou-se quem estava defendendo os setores mais populares da nossa torcida.

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Fever Pitch (Nick Hornby), páginas 76 e 77:

"Os grandes clubes parecem ter se cansado das suas torcidas, e sob certo aspecto quem pode culpá-los? Jovens trabalhadores e homens de classe média baixa trazem consigo problemas complicados e ocasionalmente perturbadores; os diretores e presidentes podem argumentar que eles tiveram sua chance e a desperdiçaram, e que as famílias de classe média - o novo público-alvo - não só irão se comportar bem, como pagar muito mais para fazê-lo. Esse argumento ignora questões básicas que envolvem responsabilidade, justiça e o papel que os clubes têm ou não a representar nas suas comunidades. Mas mesmo sem essas questões, parece-me haver uma falha fatal nesse raciocínio. O prazer que um estádio de futebol pode proporcionar é, em parte, uma mistura do vicário com o parasítico, porque a não ser que a pessoa poste-se no Lado Norte, no Kop ou na Ponta Stretford, fica dependendo dos outros para que a atmosfera seja criada; e a atmosfera é um dos ingredientes cruciais da experiência futebolística. Essas torcidas imensas são tão vitais para os clubes quanto os jogadores, não só porque seus membros são eloquentes no seu apoio, não só porque fornecem aos clubes grandes somas de dinheiro (embora esses fatores não deixem de ser importantes), mas porque sem as torcidas ninguém se daria ao trabalho de ir ao jogo. O Arsenal, o Manchester United e todo o resto têm a impressão de que as pessoas pagam para ver Paul Merson e Ryan Giggs, e é claro que elas fazem isso. Mas muita gente - o pessoal das cadeiras que custam vinte libras, e os caras dos camarotes-executivos - também paga para ver a torcida que foi lá ver Paul Merson (ou para escutar a torcida gritar com ele). Quem iria comprar um camarote-executivo se o estádio estivesse cheio de executivos? O clube vendia os camarotes incluindo a atmosfera de graça, de modo que o Lado Norte gerava tanta renda quanto qualquer um dos jogadores. Mas quem irá fazer o barulho agora? Será que a garatoda suburbana de classe média ainda virá com suas mamães e papais se o barulho tiver de ser feito por eles mesmos? Ou será que se sentirão tapeados? Porque a realidade é que os clubes estão lhes vendendo ingressos para um espetáculo no qual a atração principal foi afastada para dar lugar a eles. Mais uma coisa sobre o tipo de plateia que o futebol resolveu atrair: os clubes vão ter de garantir a qualidade, garantir que não haverá anos de vacas magras, porque o novo público não tolerará fracassos. Essas pessoas não são do tipo que irá ver o time jogar contra o Wimbledon em março, estando em décimo primeiro lugar na Primeira Divisão e fora de todas as disputas de títulos. Por que deveriam ir? Elas têm muitas outras coisas para fazer. Portanto, Arsenal... nada de escritas perdedoras de 17 anos de duração, feito aquela entre 1953 e 1970, certo? Nada de ficar flertando com o rebaixamento, feito em 1975 e 1976, nem nada de meia década sem sequer chegar a uma final, feito a que nós tivemos entre 1981 e 1987. Nós, fregueses de caderno, aturamos tudo isso, e pelo menos 20 mil de nós aparecíamos lá por pior que o time jogasse (e às vezes jogava muito, muito mal mesmo); mas essa turma nova... não tenho tanta certeza assim."

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O Leandro Iamin, brilhante, fez uma análise bem racional de todo este cenário. Vale pelo texto em si e para que se tenha noção, a partir dos comentários, do nível de alienação e afetação que tomou parte de boa parte de nossa torcida. É absolutamente desesperador.

04 maio 2015

Em frente




















Perdemos um Campeonato Paulista que poderia ser nosso se detalhes tivessem pesado a nosso favor – mas eles pesaram contra. Deixamos escapar o 23º título estadual em meio a falhas individuais e azares coletivos. Perdemos, afinal, porque faltou a intensidade que sobrou em outros momentos desta trajetória e porque o adversário soube aproveitar melhor as oportunidades.

Acontece; é o futebol.

Ao deixar o amontoado de laje ontem, a sensação era bem diferente da que me nos perseguiu em todas as eliminações de anos anteriores. O Palmeiras/2015 não foi campeão (ainda?), mas tampouco se aperfeiçoou na terrível arte das derrotas absurdas, inexplicáveis e impossíveis. Pelo contrário: dessa vez conseguimos encontrar explicações para a derrota, e elas são não apenas razoáveis, mas também aceitáveis.

Dessa vez, senhores, não há terra arrasada; é tudo questão de promover os ajustes necessários.

Se outras eliminações recentes me faziam deixar o estádio praticamente carregado, sem forças e sem condições psicológicas de esboçar qualquer reação, o Paulistão de 2015 teve para o Palmeiras um efeito revigorante. Tanto que eu deixei aquela pocilga não de cabeça baixa e com a certeza de que acabara de acompanhar uma derrota traumática, mas de peito aberto, vociferando contra os pés-com-areia ali do setor ao lado e com a certeza de que é preciso seguir em frente.

Até sábado!