09 julho 2013

Rio-SP/2000













Às vezes (não poucas), não é tanto a importância prática de um título (a projeção alcançada, as receitas que ele traz, para onde leva) que determina o seu espaço na memória afetiva do torcedor. Há outros tantos elementos impactantes, de tal forma que mesmo uma conquista de menor apelo histórico pode ser tida como inesquecível. Levemos em consideração, por exemplo, o Torneio Rio-SP de 2000.

Antes de tudo, cabe questionar: qual é hoje o valor pragmático de um Torneio Rio-São Paulo?

Resposta: praticamente nenhum.

Pois era este o peso da disputa entre cariocas e paulistas no final da década de 1990. Porque, vejam os senhores, o torneio foi disputado de maneira randômica entre 1933 e 1940 e ininterruptamente de 1950 a 1966, tendo à época enorme relevância (não existia ainda o Brasileirão) e o Palmeiras como maior campeão, para então ser ressuscitado em 1993 (com título alviverde, claro). Houve nova pausa e então os clubes do eixo Rio-SP voltaram a se enfrentar no início de temporada entre os anos de 1997 e 2002 - e foi só.

Tamanha era a importância conferida ao Rio-SP nesses novos tempos que os pés-com-areia venceram a edição de 1997 (contra o Flamengo, no Rio, com Madureira no banco e gol de Marcos Assunção), mas ninguém considerou que eles tivessem saído da fila - que persistia desde 1984 e só chegaria ao fim efetivamente no Brasileiro/2002.

Isso posto, cabe considerar a situação em que se encontrava o Palmeiras em janeiro de 2000. Vejamos o time-base: Marcos; Arce, Argel, Roque Jr. e Júnior; Sampaio, Rogério, Galeano e Alex; Euller e Pena. No banco, Asprilla. Técnico: Luiz Felipe Scolari.

À luz dos nossos dias, o que pensam?

...

Bom, pois a torcida protestava naquele janeiro de 2000 como poucas vezes fizera antes. A começar pelas contestações da maior organizada ao técnico Felipão (que erro, que erro...). De quebra, o time abria a temporada com apenas 15 profissionais à disposição (os 11 titulares mais quatro no banco).

Era reflexo da debandada ocorrida no final de 1999: de uma só vez saíram Evair, Oséas, Paulo Nunes, Zinho, Júnior Baiano, Cléber, Rivarola e Zé Maria. Começava a era do “bom e barato”, com a iminente saída da Parmalat e com o presidente Mustafá Contursi jogando contra (Edmundo, brigado no Vasco, queria voltar, mas o maldito vetou). Em sendo assim, o principal reforço para a temporada foi Basílio, então com 27 anos e já careca, vindo do Coritiba. Com ele, chegou também o zagueiro Índio.

Campeão da Libertadores/1999, o alviverde começava o ano seguinte atormentado por uma série de ocorrências:
-30/11/1999: Manchester United/ING 1-0 Palmeiras
-20/12/1999: Palmeiras 3-3 Flamengo/RJ; o bicampeonato da Copa Mercosul escapou com um gol nos minutos finais. Mais um insucesso na conta da arbitragem.
-14/01/2000: os gambás vencem o Torneio de Verão da Traffic.

Para completar, o time ia a campo com uma das camisas mais horríveis de sua história, com diferentes tons de verde (?) em faixas inexplicáveis.

Vamos ao que interessa:

Torneio Rio-SP/2000

1ª fase - Grupo B

Vasco/RJ 3-3 Palmeiras - São Januário, 3.120
Na estreia, empate heroico no Rio (o time praticamente não tinha banco de reservas). Romário marcou duas vezes e Viola completou para o time da casa. O Vasco esteve três vezes na frente, mas o Palmeiras foi buscar a igualdade sempre: dois gols de Pena e um contra de Odvan - já nos descontos.



SCCP/SP 2-1 Palmeiras - Pacaembu, 5.680
Uma noite tenebrosa na cancha municipal. Quarta à noite, chuva, tudo vazio ali pela zona oeste, jogo contra o time reserva dos gambás. Lembro-me de descer no ponto da estação Clínicas (fui de Pompéia 478P/10) e seguir até o tobogã praticamente sem ninguém na Major Natanael. Em um cenário desolador, pouco mais de 5 mil pessoas deram as caras para acompanhar o primeiro dérbi dos muitos que viriam naquele ano. A torcida dos gambás comemorava a fraude que foi aquele Torneio de Verão da Traffic - e, claro, tivemos de ouvir alguns absurdos. Levamos o primeiro gol de um certo Augusto, lateral-esquerdo amaldiçoado pelos caras. Euller foi buscar o empate, mas Fernando Baiano decretou a vitória dos gambás. Tudo na etapa inicial. Depois, Euller até empatou, mas o árbitro anulou.

Palmeiras 6-2 Fluminense/RJ - Palestra, 9.320
Intervalo no Palestra: Palmeiras 0-2 Fluminense, gols da dupla Roni e Magno Alves. Caminhando para fechar o turno com um ponto em três jogos, o alviverde praticamente se despedida da competição. A torcida protestou de maneira irascível: pela derrota em si e pela insatisfação com os rumos do clube. Foram 15 minutos infernais na arquibancada e, claro, nas numeradas. Eis que o time voltou a campo para, com seis minutos de jogo, buscar uma virada inacreditável: dois gols de Euller e um de Asprilla. Já nos instantes finais, outros três gols: mais dois de Euller (que fez quatro ao todo) e outro de Basílio. Os protestos no intervalo, no entanto, deixaram cicatrizes na relação entre Felipão e Mancha Verde.



Palmeiras 2-1 Vasco/RJ - Palestra, 15.787 pagantes
Vitória consistente no Palestra. Romário, claro, marcou para o clube da Cruz de Malta; Basílio e Asprilla fizeram os nossos. Foi a estreia do terrível terceiro uniforme, que motivou protestos da torcida (que também se rebelou contra a Parmalat). No Vasco, Edmundo brigou com Romário e foi substituído, deixando o estádio mais cedo; foi, é claro, aplaudido pela torcida. Seu retorno ao ficou perto de acontecer; mas tínhamos um certo Mustafá Contursi na presidência.

Palmeiras 3-1 SCCP/SP - Jd. Leonor, 6.327
O segundo dérbi do ano foi visto também por pouca gente, com maioria alviverde. Choveu muito. Muito mesmo. O mais difícil foi o trajeto até o Jd. Leonor naquela quarta-feira à noite com trânsito infernal em SP. Se bem me lembro, peguei o bom e velho Jd. Irene (5119), hoje Terminal Capelinha, para chegar cedo. Tão cedo que praticamente não havia ninguém nas imediações; apenas alguns manchas ali nas barraquinhas de pernil que costumavam ficar entre a Padre Lebret e a Jules Rimet, em frente ao portão 6. Os gambás desciam lá do Palácio do Governo e as brigas se sucediam. Foram muitas, incontáveis - e a PM só acompanhava. Em campo, Alex marcou três vezes e garantiu a vitória, a classificação com uma rodada de antecedência e a eliminação dos gambás; o Vasco também assegurou a vaga na semifinal ao bater o Fluminense por 1 a 0 no outro jogo da rodada. Na volta, tarde da noite, bandos de manchas amontoados na avenida Morumbi, à espera de ônibus que demoraram horas para passar...



Fluminense/RJ 0-2 Palmeiras - Maracanã, 4.229
Em jogo para cumprir tabela - e para garantir a liderança do grupo -, vitória no Maracanã com gols de Arce e Juliano.

Ao final de seis rodadas, tivemos o seguinte:

Grupo A
1. SPFW: 12 (C)
2. Botafogo: 10 (C)
3. Flamengo: 8
4. Santos: 4

Grupo B
1. Palmeiras: 13 (C)
2. Vasco: 11 (C)
3. SCCP: 7
4. Fluminense: 3

Semifinal

Botafogo/RJ 0-0 Palmeiras - Maracanã, 18.687
Empate sem gols, bom resultado. Mas a semana ficou marcada mesmo por um manifesto divulgado alguns dias antes, pela Mancha Verde, contra o técnico Luiz Felipe Scolari.

Palmeiras 3-1 Botafogo/RJ - Palestra, 12.007
Com gols de Sampaio, Euller e Alex, o Palmeiras passa fácil pelo Botafogo e avança para a grande decisão. Do outro lado, o Vasco massacrou os bichas: 3-0 no Jd. Leonor (ida) e 2-1 no Rio (volta).

Final

Vasco/RJ 1-2 Palmeiras - Maracanã, 23.484
O Baixinho, é evidente, marcou o gol do Vasco. Mas os comandados de Felipão jogaram muita bola e Sampaio e Pena decretaram a virada palmeirense no Maior do Mundo.

Palmeiras 4-0 Vasco/RJ - Jd. Leonor, 42.505
Jd. Leonor, 1º de março, a redenção. Com uma das atuações mais perfeitas de um time do Palmeiras em um único tempo de jogo, o Palmeiras abriu 4 a 0 (um golaço de Pena e mais Argel, Euller e Arce) e assegurou o título sem a menor dificuldade. Vejam: o nosso time, desacreditado, desentrosado e sem sobras, humilhou (6-1 nos 2 jogos) um Vasco que tinha Romário, Edmundo e Juninho Pernambucano. Foi o quinto título do Palmeiras na história do Torneio Rio-São Paulo - ninguém ganhou mais do que o Verdão.


*O gol de Pena, o primeiro, foi um dos mais lindos que eu já vi em um estádio. Um pouco pela tabela, mas essencialmente pela maneira como o camisa 9 bate na bola e pela velocidade que ela toma.

Curiosidades:

-Campanha geral: 10 jogos, 7 vitórias, 2 empates e 1 derrota; 26 gols pró e 11 gols contra.

-O Palmeiras jogou quatro vezes no Rio: venceu duas e empatou outras duas. No Palestra, três vitórias em três jogos. No Jd. Leonor, duas vitórias. No Pacaembu, a única derrota.

20 comentários:

César SEP disse...

Naquela época a camisa era feia e o time era bom, hoje em dia é o inverso...
Vídeos legais, deu para reviver grandes momentos

Mauricio disse...

Bons tempos, ótimo post! Tenho uma camisa dessa até hoje, é feia pra caramba mas traz boas memórias.

Time era muito bom, atuais campeões da Libertadores e reclamávamos! Como as coisas mudaram...

Luiz Fernando Sanchez disse...

A MV tem qualidades inquestionáveis,mas ao ao mesmo tempo faz cagadas homéricas,esse protesto contra o Felipão não fazia o mínimo sentido,lembro q durante a copa São Paulo do ano 2000 também,alguns manchas invadiram o campo(!) com faixas escrito "Fora Felipão" e "Fora Parmalat".

Essa campanha do rio-sp foi de dar orgulho para qualquer palmeirense vencemos times superiores e goleamos Vasco e Flu impiedosamente,não á toa chegamos a final da libertadores e só perdemos nos pênaltis para um gigante sul-americano.

Luan disse...

me lembro bem dessa conquista! preguei um quadro na parede do meu quarto desse título!

e como é bom ter lindas histórias para revivermos!

e como jogavam Arce e Euller! sempre serão meus grandes ídolos!

Geraldo Batista disse...

A MV como sempre fazendo merda...falar de felipão VTNC

Rodrigo Amato disse...

2 pequenas correções históricas: o Augusto, lateral gambá, jogava na esquerda e não na direita. Ele virou nosso ídolo depois daquele 4 a 1, quando fizemos 3 em 10 minutos, lá no panetone no brasileiro de 1999 pela 1ª fase daquele ano. E os 4 a 0 no vasco, não foram todos os gols no primeiro tempo. o 4º gol foi de pênalti do Arce no meio do 2º tempo, ali na minha frente, pq eu tava na geral.

Esse título foi muito bom, pq deu uma lavada na nossa alma depois da série de acontecimentos q vc lembrou. Mas o nosso 30/11/99 só foi acabar mesmo em 6/6/00.

Bons tempos, tínhamos time e até torcida... hj é um arremedo de time com uma torcida alienada em sua maioria. Sucessivas administrações mal intencionadas e incompetentes nos trouxeram até aqui. Espero q iluminem os imbecis hoje lá e nos tirem dessa situação ridícula, pq uma coisa é fato: se estamos na merda é por merecimento!

Barneschi disse...

Rodrigo Amato

Obrigado pela primeira observação: eu tinha para mim que o Augusto era lateral-direito, mas, se você diz que era esquerdo, a correção está feita no post.

Sobre o segundo ponto, eu não quis dizer que os quatro gols foram no primeiro tempo. Quis dizer que foi uma atuação praticamente perfeita na etapa inicial. Pode ver no texto.

Anônimo disse...

Boa tarde a todos, eu estive na final contra os tamanqueiros cariocas, que sempre foram vitimas com certeza, sendo que o uniforme que forçadamente o MUMU, o maldito, expos ao clube deva a clara demonstração que as tragédias seriam inevitáveis , pois o apoio financeiro já era debilitado, além da politica caolha de um câncer que se mantem vivo, manipulando suas vontades dentro e fora do Palmeiras , exercendo seu controle ao presidente marionete, colecionador de ``porquinhos´´, correndo contra o tempo, em busca de uma oportunidade, realmente há um hiato para termos uma representatividade correta na presidência, a herança é maldita!
Claudio Longo!

CASSELLl disse...

Belo relato!

Fui contra o Botafogo e na final com o Vasco. Assisti de cadeira inferior.

Foi isso mesmo, não valia nada mas valeu muito. Massacramos o Vasco!

Acho desonrados os que falam mal ou contestam Luiz Felipe Scolari.

CASSELLl disse...

Só para lembrar o Pena entrou em um jogo contra os Gambás e enfiamos 3x0 em 10 minutos

Anônimo disse...

Eu estava na final. Arrebentamos com o Vasco. E o Pena jogava muito, eh uma pena que ele (assim como o Lopez cheirador) soh faziam merda fora de campo.

Fui tambem contra o fluminense (6 x 2) em casa e contra os gambas no morumbi. No jogo contra o fluminense, me lembro de um senhor (bem velho) no intervalo xingando Soa Pedro pela chuva (hilario). No jogo do Morumbi, me lembro que eu fui com a Mancha, naquela epoca quem era lideranca era o Robertinho, Magrao e Tovi (RIP) da torcida, soh doido... haha

VICTOR TREDENSKI disse...

RODRIGO

FAÇA UM POST SOBRE O TITULO DA COPA DOS CAMPEÕES DE 2000

O 10° TITULO NACIONAL DO VERDÃO

NÃO É UM TITULO QUE TODO PALMEIRENSE GUARDA NA LEMBRANÇA, MAS É, IGUAL AO RIO-SP DE 2000, MARCANTE DEVIDO AS CIRCUNSTANCIAS EM QUE ESTAVAMOS

GUARDO NA MINHA MEMÓRIA COM CARINHO ESSE TITULO

ABRAÇOS

Luan disse...

Barneschi, e o nosso volante urugayo? está mostrando ser um jogador sério, comprometido, e que veio para jogar bola e não para passear. sem falar que vem do grande Uruguay! terra de homens de verdade

FC disse...

Otima lembranca, principalmente por conta do ambiente da epoca, pos-mundial-99.
Nao bastasse perder no Japao, na volta ainda entregamos a Mercosul para o Flamengo com gol do Caio-Comentarista.

Essa do Edmundo querer voltar eu nao sabia. Mais um legado do Mustafa....

O uniforme horrendo da foto e dos videos foi o primeiro de uma serie de infelicidades da Rhumell-pirata e da Adidas... nem gosto de me lembrar do verde-agua-prata do jogo contra o Asa, amarelo-limao, cinza, etc.

Otimos registros Barneschi, parabens mais uma vez.

Abraco,
FC

FC disse...

Mais sobre o momento vivido na epoca...

Aos olhos de hoje o time parece bom. Em 2000 todos quesitonavam o time, ja que haviam desmontado o campeao da libertadores de 99.

Basilio, Pena, Argeu e cia eram realmente fracos em relacao a Evair, Paulo Nunes, Clebao e cia. Mas excelentes em relacao a Vinicius, Kleber Displicente, Andre Luiz e cia.

Asprilla foi contratado para jogar especialmente a decisao do mundial. E jogou novamente durante o ano de 2000... Alguem sabe por que nao jogou o Rio-SP no inicio do ano?

Diego disse...

Ele começou titular, depois foi joga a Copa Ouro pela Colômbia.

acreano disse...

Meu deus!
e essa defesa do marcos na final 1:30 no vídeo
pelo amor de deus!!!

Barneschi disse...

Victor Tredenski,
Vou escrever sobre a Copa dos Campeões/2000. É um dos próximos.
Abraços

Raul Martins Dias disse...

Um comentário quanto ao real valor desse torneio: para a imprensa, o valor do torneio era determinado por quem o vencia. Se fosse o time de Itaquera, valia quase tanto quanto um Mundial. Se fosse os sardinhas, ou se fosse o PALMEIRAS, não valia nada.

Lembro bem de um certo comentarista que é melhor fazendo merchan do que comentando - e que se diz santista. Pouco antes da final do Brasileiro de 2002, entre gambás e o time do litoral, ele disse que "o sccp buscava seu terceiro título importante em 2002, e o sfc buscava sair da fila de 18 anos". O recado foi claro: o título do sccp valia; o do sfc, não.

Brian Kaltenbacher disse...

cara, vc nao consegue o video da final do jogo de ida ? o 2a1 no vasco no maraca, abraço. procurei mas nao achei