08 abril 2013

"Como o futebol explica o mundo"

























Franklin Foer, jornalista norte-americano, é o nome por trás desta obra que apresenta uma série de histórias pelo mundo para dissecar aspectos importantes do futebol nestes tempos tão, como é mesmo?, modernos. Com estrutura bem definida (pouco mais de 200 páginas em 10 capítulos, cada qual abordando uma temática distinta), o livro faz uma análise sobre como o futebol influencia (e é influenciado) por questões políticas, religiosas e históricas.

O "globalização" presente no título ficou um pouco datado (parece coisa dos anos 1990...), mas isso não inviabiliza a proposta. O livro tem muito de sociologia, mas com uma abordagem prática, sustentada em exemplos, relatos e situações históricas. O autor não tenta defender tese alguma, a não ser a de que "o futebol explica o mundo". O resultado, exceção feita ao dissonante capítulo sobre o Barcelona, é primoroso.

Como eu considero a metade inicial bastante superior ao restante (que, ainda assim, é notável), vou apresentar os quatro primeiros capítulos (e já digo que o quinto tem Eurico Miranda como um dos personagens principais), com direito a um ou mais trechos selecionados:


1- O paraíso dos gângsteres
A relação entre os ultras locais (em especial do Estrela Vermelha, campeão da Copa dos Campeões da Europa de 1991) e o processo que levou ao desmembramento da ex-Iugoslávia. Os grupos armados que surgiram a partir das torcidas locais, o uso político da paixão pelo futebol e o ódio declarado entre sérvios, croatas e bósnios.

"A área de Belgrado onde fica a sede do clube tem um aspecto caricaturalmente assustador. Um enorme bando de corvos reside no telhado do estádio. Quando um time marca um gol e a multidão explode, os pássaros fogem - por toda a cidade, é possível calcular o resultado dos jogos com base na presença ou na ausência de uma nuvem ornitológica sobre o horizonte."


2- A obscenidade das seitas
Celtic x Rangers: ódio, sectarismo e violência em Glasgow, maior cidade da Escócia. A origem dos conflitos religiosos, como surgiram os dois clubes, os guetos. Os católicos do Celtic se sentem perseguidos pelos árbitros e pelos dirigentes protestantes, por exemplo, e o livro se encarrega de registrar essa (muito defensável) tese. Destaque também para a migração dos irlandeses de Belfast a cada dia de clássico em Glasgow.

"A plenos pulmões, eles cantam em louvor de nossa matança. "Estamos até os joelhos de sangue feniano". São 44 mil, na maioria torcedores do protestante Glasgow Rangers Football Club. Como esse é o Ibrox, o estádio de seu time, eles podem cantar o que quiserem. "Se você odeia a porra dos fenianos, bata palmas". Nós, os sete mil torcedores do Celtic Football Club, time tradicionalmente católico de Glasgow, estamos sentados num setor isolado do estádio, reservado para visitantes, atrás do gol. "Rendam-se ou morram".


3- A questão judaica
Nada de Israel, como se poderia supor pelo título. O capítulo começa com a história do Hakoah, um clube de Viena que, depois de dominar o futebol na Áustria no início do século XX, foi destruído pelo nazismo. Depois, o Tottenham ganha grande destaque, com a reconstituição de sua origem e os confrontos com a torcida do Chelsea. Passamos então para outros clubes com histórico judeu (Roma, Bayern Munique e Ajax) e o preconceito contra eles (a explicação do livro para o anti-semitismo de boa parte dos europeus é bem interessante). Para fechar, Budapeste:

"Fora do estádio, no antigo bairro alemão da área sul de Budapeste, policiais colocam torcedores em fila e os revistam. Embora confisquem facas e projéteis, estão muito mais interessados em impedir a entrada de faixas que atraiam para o país uma atenção indesejada. É um testemunho da atuação da polícia húngara - ou talvez da determinação dos torcedores - o fato de raramente atingirem seu objetivo. Torcedores do Ferencvaros enrolam as faixas em torno do corpo e as ocultam sob as roupas. Antes dos jogos, as desenrolam e dispõem de modo a formarem sequências completas. Uma delas começa: "Os trens estão partindo...". A segunda conclui: "Para Auschwitz". Esse slogan diz quase tudo sobre o ambiente no estádio."


4- O hooligan sentimental
Quando os alienados resolvem protestar contra as torcidas organizadas, sempre haverá algum puto para falar sobre o "exemplo da Inglaterra". Que bobagem. O que se passou por lá foi a destruição do futebol como esporte da classe operária. Nada mais do que isso. Em "O hooligan sentimental", Franklin Foer se apoia em um único personagem, um judeu que contrariou a lógica ao se tornar um dos líderes da torcida do Chelsea, para mostrar a mudança no perfil do torcedor da Inglaterra desde os anos 1980: a interferência do governo, o papel nocivo de Margaret Thatcher, a entrada dos magnatas do petróleo, a elitização, a exclusão da classe operária etc. Ele não faz juízo da situação; é um relato meramente jornalístico. Para o tal hooligan, no entanto, o que prevalece é o saudosismo de um tempo que não volta mais.

"Até a década de 1990, grande parte da elite social da Inglaterra tratava o futebol com desdém. Antes de Rupert Murdoch tentar adquirir o Manchester United, ficou famoso o rótulo que seu jornal Sunday Times atribuía ao futebol: "um esporte de favelados praticado por favelados". A primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, principal defensora dos supostos valores da classe média, exibia mais do que ninguém o seu desprezo. Kenneth Clark, amigo íntimo da Dama de Ferro, disse que ela "via os torcedores de futebol como inimigos internos".
(...)
"As novas exigências transformaram a economia do esporte. Para financiar a reconstrução de seus estádios, os antigos proprietários, na maioria pequenos empresários que se fizeram por conta própria, importaram montanhas de capital novo. Grande parte dele veio de espertos investidores urbanos que percebiam que o futebol tinha um mercado cativo gigante e sólidas fontes de lucro inexploradas. As novas instalações incluíam luxuosas suítes executivas alugadas a grandes empresas. Os clubes lançaram ações na bolsa de valores, aumentaram o preço dos ingressos e venderam os direitos de transmissão dos jogos da Liga ao serviço de TV por satélite de Rupert Murdoch. O plano funcionou perfeitamente. Um novo tipo de torcedor, mais abastado, começou a frequentar os jogos em estádios mais seguros e confortáveis".
(...) 
"... o capitalismo das multinacionais priva as instituições locais de seu caráter local, homogeiniza, destrói tradições e destitui os proletários e camponeses nativos das coisas que mais gostam."

Notaram semelhança com o que enfrentamos por aqui?

Pra fechar, esse aqui vai de brinde:

“Outra tese semelhante a essa e bastante difundida sustenta que a raiz da violência pode ser encontrada no próprio ritmo do jogo. Como os gols surgem numa sequência tão irregular, os torcedores gastam tempo demais sublimando suas emoções, antegozando-as, mas não necessariamente liberando-as. Quando essas emoções se expandem e se tornam incontroláveis, os torcedores irrompem em sombrios acessos dionisíacos de violência extática.”

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Onde comprar: em qualquer grande livraria - e até nas pequenas. Pela internet também é fácil. Custa algo em torno de R$ 45.

10 comentários:

Ademir Castellari disse...

Barneschi, esse livro é leitura obrigatória para quem leva futebol a sério. Por falar nisso, há uma versão brasileira, Futebol explica o Brasil. Aqui: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?isbn=8572444505&sid=46164319812223833071611 Fora o fato do cara odiar o Getulio, de resto o livro é bom.

Leonardo disse...

Já ouvi falar deste livro e, depois deste texto, parece-me mais do que uma leitura obrigatória.

Mais uma vez, bela postagem.

* Grande vitória em Campinas.

Leonardo Nakamura

Rafael disse...

Interessante, vindo de um americano. Vou procurar.

Anônimo disse...

Belíssima apresentação, Barneschi. Conheço o livro e considero-o essencial para quem ama, de fato - não como consumidor - e tem interesse real no futebol . Olhando para o cenário brasileiro, só temos a lamentar os rumos que estamos seguindo. O futebol agoniza. Abraço,

Vinicius disse...

Olá Barneschi, sei que isso foge totalmente do assunto proposto pelo post, mas gostaria de saber qual a sua opinião quanto ao uso de recursos eletrônicos para interferência imediata nos capitais das partida. Abraço!

Vinicius disse...

Lances capitais*

Anônimo disse...

Nao sou palmeirense, mas passa aí umas dicas para ingressos no exterior. Vlw William

Guilherme Borges disse...

E ontem morreu uma das maiores idealizadoras do aqui chamado "futebol moderno".
Um post sobre o assunto - nem que fosse apenas uma celebração pelo falecimento da crápula - seria sensacional.

Ah, e cabe ver o vídeo abaixo. É ótimo!
http://www.youtube.com/watch?v=NtwavcblPzo

claudio longo disse...

Boa noite a todos, PARABENS Barneschi, excelente Post, seu trabalho é digno de elogios e admiração de todos que lutam pelo FUTEBOL de raiz, algo que tem a força única em destinar a todos, o principal desejo de termos a Autentica disputa na Cancha, PARABENS!

lucas disse...

Barneschi existe esse livro disponível em download ?