19 abril 2012

Turiassu, 1840 (10)



21h17. No começo, somos poucos, amontoados entre o portão de acesso à arquibancada e o portão social do clube. Os de sempre.

22h09. A noite fria de junho era ainda mais fria porque ao ar livre, as costas apoiadas no muro da nossa casa, os pés esticados na calçada, por vezes com uma caixa de papelão aos pedaços servindo de proteção. Tem um figura que trouxe cobertor de casa.

23h35. A fogueira improvisada não dá conta de atenuar o frio que só não se faz tão presente quanto a expectativa pelo dia seguinte. Nem tanto por dissipar a escuridão da noite paulistana, mas por sinalizar a proximidade do horário de abertura da bilheteria logo adiante.

0h. Chegam mais alguns, trazidos pelos últimos vagões do Metrô e pelos derradeiros ônibus, que já começam a rarear. O trânsito já quase inexiste. Um ou outro carro passa em alta velocidade. Outros reduzem a velocidade e estranham aquela aglomeração a horas tantas de um domingo à noite.

0h17. Sono. Cochilo rápido.

1h. A madrugada traz mais dezenas de palestrinos, surpresos ao notar que a fila já se estendia para além da banca de jornal. Coisa pouca ainda: em breve chega ao Shopping Matarazzo.

1h23. Passa um carro todo filmado. Um idiota abre o vidro e grita alguma cretinice qualquer. Voa uma pedra. “Chupa, gambá!”

2h. Dizem que a multidão já estava dobrando a esquina. Dizem. Segue-se a caminhada Turiassu abaixo. Vale tudo para passar o tempo. Um conhecido aqui, outro ali, abraço, “e aí, mano?”. Sim, já tem nego na esquina, ali por entre as grades verdes desgastadas do McDonald´s que, bravo e guerreiro, resiste até hoje.

2h29. Fome. Posto Texaco da esquina com a Sumaré. Pão de queijo murcho, um Fandangos, qualquer coisa assim. Refrigerante. Há quem apele. Pinga, vodka, essas coisas.

2h47. A fila só faz crescer. Avenida Pompéia. Depois Matarazzo.

3h. Mais e mais palestrinos chegam. Normalmente das transversais, alguns da Sumaré. Passam pelo começo de tudo, cumprimentam os conhecidos e seguem em frente. Há os que se aproximam e já ficam por ali mesmo. Ainda há espaço para furar a fila.

3h38. “Por que nenhuma barraquinha de pernil e calabresa teve a ideia de ficar aqui durante a madrugada?”. Nunca consegui uma resposta para essa pergunta. Se o Bigode fizesse isso, ganharia mais dinheiro do que em muitos jogos.

3h51. A pergunta que mais se ouve durante a noite é “Lembra daquele jogo que...?”. Quase todos têm histórias para contar. Uns mais, outros menos. Alguns, principiantes naquela arte, só escutam. Brigas, caravanas, tardes e noites históricas. Quanto mais antiga a história, mais o sujeito se faz respeitado. Alguns exageram, mentem até. Mas é fácil identificar os falastrões.

4h. O tempo não passa. O frio só aumenta. Movimento quase zero.

4h29. Os primeiros ônibus do dia e o Metrô começam a despejar naquele pedaço privilegiado da zona oeste o enorme contingente dos que, depois de uma noite de sono em casa, resolveram chegar logo cedo. Cedo? Pode ser tarde demais; confrontos decisivos exigiam o sacrifício de dormir ao relento.

4h51. É o limite para uma última volta pelo estádio – mais tarde será impossível. Aumenta o fluxo de pessoas que vêm da Barra Funda. Quem chega já fica na Padre Thomaz, perto do West Plaza.

5h. De volta à nossa posição privilegiada. Dali não dá mais para sair. A fila, dizem, já chegou até a Sumaré. Uma multidão se movimenta por entre as ruas próximas. Mais fome. Alguém saca um pacote de bolacha da mochila. Come duas e oferece o resto. O pacote passa de mão em mão e não volta mais.

5h11. Chega o jornaleiro e abre a banca. Os poucos exemplares do Lance! e de A Gazeta Esportiva se esgotam em minutos. Sem opção, os próximos ficam com Agora, Diário Popular e JT. Folha e Estadão acabam sobrando. O Lance! é o mais fácil de ler na fila: cada exemplar passa por dezenas de mãos antes de quase se decompor.

5h27. Ônibus e mais ônibus chegam e vão despejando gente na Turiassu. A caminho do trabalho, os vidros embaçados pelo orvalho da madrugada, ocupantes dos coletivos ficam intrigados com tanta gente na rua àquela hora da madrugada. Até o cobrador, que dormia desde a Praça Ramos, estica o olho para saber o que se passa.

5h56. Quem chega agora teme pelo pior. “Fodeu. Vou ficar sem ingresso”. A fila já voltou para a Turiassu. Mais de um quilômetro de gente amontoada em volta do estádio, do shopping, das casas do fundo.

6h27. Começa o dia para os botecos em frente. Pão na chapa e pingado. Mas só para quem está mais atrás na fila. Nós, ali na frente, nem podemos sonhar em deixar o lugar.

6h31. O dia começa a se fazer dia.

6h55. Começo e fim da fila se aproximam de maneira perigosa para quem não está perto. Um tumulto aqui, outro ali. Nego tenta furar a fila. Xingamentos, empurrões, os primeiros gritos de guerra ecoam pela Turiassu.

7h07. Situação quase incontrolável. A fila engorda a olhos vistos.

7h16. Chega a PM. Despreparada. Os primeiros coxinhas distribuem porrada sem pensar. Ameaças. Empurrões. Correria.

7h33. Só agora, com o caos instalado, chegam os gradis de isolamento – que já deveriam estar ali desde a noite anterior. Cada um tenta proteger o seu lugar. Um ou outro aproveita a bagunça para se infiltrar.

8h06. A Turiassu parece não comportar mais tanta gente.

8h10. Um caminhão carregado de laranjas estaciona em frente ao shopping e fica entre as duas filas - a da calçada e a da rua. Péssima ideia. Guerra de laranja. Elas voam de um lado para o outro.

8h22. Chega a imprensa. Repórteres dos jornais, fotógrafos, operadores de câmera, o escambau. À espera do pior.

8h39. É gente que não acaba mais. “Por que cazzo não abrem a bilheteria já agora, porra?”. Pergunta sem resposta.

8h51. “Ouvi dizer que vai abrir antes”. Sempre aparecia alguém com essa. Estádios de futebol adoram boatos.

9h17. Expectativa, ansiedade, pânico. O celular toca sem parar. “Mano, consegue um pra mim?”, "Cara, só acordei agora...", "Pô, será que ainda dá tempo?", "Tô aqui na Matarazzo. Tem como entrar aí na frente?", "Vai abrir já?"

9h26. A PM fecha a Turiassu. Parece dia de jogo. Helicópteros. Cavalaria. Viaturas. A cidade toda parece estar concentrada ao redor do Palestra.

9h47. “Abre essa merda, porra!”

9h51. “Olê, Porcooo!”

9h53. “Quando surge o alviverde imponente...”

9h57. "Gambá, vou te matar..."

9h59. Bilheteria aberta. Enfim.

10h02. A fila não anda. Sim, abriu a bilheteria, mas tudo fica parado. Tensão. Aperto. Suor. Ritmo lento. "Imagina só quem está uma volta atrás...".

10h05. Tá lá o guichê.

10h11. Dinheiro e carteirinha de estudante em mãos. Aglomeração atrás. Peito estufado, ombro elevado, a sensação de precisar proteger a posição privilegiada. Ingresso na mão. Estamos entre os nossos, mas todo o cuidado é pouco.

10h13. O empurra-empurra fica para trás. Turiassu. A rua e não mais a calçada. Só nossa. Ingresso na mão. O jogo começa ali.

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Recebi a foto lá do alto por email. Queria alguma de 1999 ou 2000, mas não consegui. Presumo eu que esta aí seja da final do Paulista/2008, também um caos. Vejam aqui no Parmerista!

20 comentários:

gregory disse...

3h51. A pergunta que mais se ouve durante a noite é “Lembra daquele jogo que...?”. Quase todos têm histórias para contar. Uns mais, outros menos. Alguns, principiantes naquela arte, só escutam. Brigas, caravanas, tardes e noites históricas. Quanto mais antiga a história, mais o sujeito se faz respeitado. Alguns exageram, mentem até. Mas é fácil identificar os falastrões.

HAHAHAHAHAHAH perfeita essa parte.

Eu queria ter vivido essa época em estádio, comecei pouco tempo depois.

Mas vou te falar, poucas coisas são tão prazerosas quanto fila para comprar ingresso, as amizades que acaba fazendo, as histórias que ouve, a tensão se vai ou não conseguir ingresso, é bom demais.

Belo texto, de novo, parabéns.

Roberto Kamarad disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Roberto Kamarad disse...

Em 2008, cheguei às 4h, pois trampava de madrugada, enfrentei a fila, tomei bomba de gás na mente, e voltei pra casa, sem ingresso, debaixo de chuva. Vida de torcedor... Vai, Palmeiras!!!

Luan disse...

Nossa Barneschi chorei ao ler esse post. Meu sonho seria viver isso tudo que voce escreveu! Mas nasci a quase 400km de sp e até hoje estou aqui na minha cidade. Voce já deve ter vivido muitas alegrias com o Palmeiras que superam as tristezas por quais passamos com nosso time nos últimos anos. Parabéns por ser este grande Palestrino que é!

AVANTI PALESTRA

Anônimo disse...

estive na fila para a final de 99.....cheguei por volta das 05h00....a fila tava na ruazinha atrás do palestra...aquela dos prédinhos......tentei pegar a fila da forma correta.....às 13h00 estava próximo ao mc donalds....varios boatos que nao havia mais ingressos....resolvi ir lá pra porta arrumar um jeito de conseguir o sonhado ingresso....um tiozinho aceitou a proposta de ganhar uns 10 conto a mais e ir na fila de idosos....dei 50 mago pra comprar meu ingresso.....veio a polícia e acabaou com a zona que estava ali na frente...nao teve jeito, tive que correr....até hj procuro o lazarento do tiozinho com os meus 50 mangos!!! pqp...hahahah....mas é história pra vida, não é mesmo!!!

inclusive em uma destas confusões por ingressos, um grande amigo meu sai na porrada com um cambista uma vez em frente ao Palestra....no outro no dia no jornal gazeta, lá estava o cidadão na capa do jornal dando um murro no cambista !! Até hj guarda o jornal e o exibe com orgulho!!!!

Abs.
PorcoCareca.

Anônimo disse...

Nossa Barneschi , que emoçao de ver essa foto ai em cima , eu estava ai em 2008 , cheguei por volta das meia -noite no Palestra com dois amigos , um do trampo e outro de infancia , para comprar o ingresso para ver o Palmeiras Campeão , rimos , zuamos , jogamos conversa fora , infelizmente esse meu amigo de infancia morreu dois meses depois de acidente de moto ( descanse em paz Alex ) e toda vez que eu lembro dele , eu lembro desse dia q dormimos na calçada e me emociono .


Abs


Curto bastante o seu blog , parabéns pelo Trabalho .


Bruno Osasco

Gabriel - Cabelo disse...

Lembro que em 2001, na semifinal da libertadores, invadimos a área externa da Papa Genovese pra dormir sobre as mesas...

Como se já não bastassem todas as mudanças, me dá uma certa tristeza ver aquela loja de móveis na esquina onde eu celebrava as vitórias do Palestra com a minha família.

Abs

Gabriel - Cabelo

Barneschi disse...

Pô, Gabriel, assim você estraga a surpresa de um dos próximos posts. Até pensei em colocar essa história agora, mas ela merece mais destaque.
Abraços

Edsinho IV Centenário disse...

Prezado Barneschi, acredito que esse post seja sobre a final da Libertadores 1999, até já postei no face, cravando o palpite, pois bem, se foi, digo que cheguei por volta de 8h com um amigo-Ronaldo-, a fila já estava na Pe.Antonio Thomas ;Ronaldo ficou até 9 e meia, pois tinha que trabalhar, eu fiquei, já não tinha conseguido pro jogo contra o River e iria ficar, teria que arrumar 4 entradas cqc. A fila só aumentava a cada minuto, e é bem aquilo que está postado, histórias não faltavam, a Turiassu estava transbordando de gente, eis que pelas 12 horas começa uma chuva, no começo fraca e que aos poucos vai e encorpando, eu sem capa, molhado até no ponteiro do relógio, a bagunça alastrando-se... até que a polícia coloca um cordão-onde hoje fica o depósito do Bourbon-quem está até ali fica, quem não está..., bau-bau, eu fui um dos últimos-, gente correndo, xingando..e a chuva, quando chegou a minha vez no guichê-só 2 por pessoa, fzer o que? Sai dali, feliz como um pintinho no lixo e ensopado.O resto todos sabem, dali 2 dias lá estava, com meu sobrinho Vitor, mais Ronaldo e Sarah-o casal amigo, que se viraram e conseguiram com amigo do amigo do chefe que trabalha...,enfim, 2 horas da manhã do dia 17 de junho de 1999, estava na Av. Paulista-rouco-na comemoração que nunca mais esquecerei,mas a fila da Tuiassu...

Luiz Fernando disse...

Puts,cara queria muito ter vivido no estádio essa época das glórias no final dos anos 90 começo dos 2000,eu tinha uns 11,12 anos,só tinha eu de parmerista na família,queria ter tido um padrinho neste aspecto,nos últimos tivemos poucas decisões memoráveis,e quase todas elas foram decepções monumentais,vide Goiás,Ipatinga,Santo André,etc...,nestas eu estive,espero que esse ano consigamos chegar nas decisões principalmente no mata-mata que é minha preferência,e provável que um dia eu encontre o barneschi e o pessoal que comenta aqui no blog na fila,pois o público "seleto" de arquibancada,tá cada vez mais raro,se extinguindo cada vez mais,infelizmente

fernet disse...

que saudade d tomar todas na frente do palestra antes dos jogos , eu e meu camarada brunela...tempo bom

Luiz Fernando disse...

Mudando de assunto,barneschi,vc viu o Assunção colocando o Perrone Leão Lobo no seu devido lugar

Anônimo disse...

Privilegiados os Tiozões que viverão essa época, hj com 20 anos a unica final que vivenciei foi a do paulista de 2008, ja indo ao estadio com os camaradas da mancha aqui da cidade (Cotia), porém não tive que ficar na fila para comprar ingresso, pois um primo meu me arrumou

Barneschi disse...

Vi sim, Luiz.

Anônimo: "tiozões" é foda, hein?

Anônimo disse...

mto bom mesmo

vbarneschi, essa fila ai foi pra qual jogo?? final de 1999? 2000?

DANIEL ABC disse...

Grande amigo,
Este post me fez recordar de noites mal dormidas em torno do Palestra, principalmente nos "jogos-filés" de libertadores. A parte que me deixa puto nisso é a mesma de sempre, os oportunistas de plantão que sempre tomaram o lugar daqueles que roeram o osso por um campeonato todo. Apesar disso, história é o que não falta e as recordações são as melhores possíveis.
Abraço!!!

Anônimo disse...

Cara,vc viu que marcaram jogo de volta da copa do brasil pra Arena Barueri??q vergonha desses vagabundos

Bruno

Barneschi disse...

Os comentários sobre esta merda de Barueri e sobre as imbecilidades proferidas pelo nosso treinador ficam para depois do jogo de domingo. O foco agora é Campinas; voltamos ao tema depois disso.

Barneschi disse...

Ah, esse post aqui não se refere necessariamente a uma única noite, até porque ninguém seria capaz de guardar tudo isso na memória. Mas são todas lembranças reais de diversas noites vividas na Turiassu.

Nicola disse...

A maior fila que encarei foi pra conseguir ingresso pra pré-libertadores de 2006 contra o Táchira... Entrei na fila já na metade da Padre Antonio Tomás, pra mais, deve ter chegado quase na Matarazzo uma ou duas horas depois que cheguei... Fiquei umas 5h na fila mas consegui. No dia do jogo fiquei quase no mesmo lugar da fila pra entrar no estádio, mas como não tinha torcida adversária antes mesmo de chegar na Turiassu abriram os portões de cima. Choveu pra caralho...

Depois de falar tanta asneira e renegar nossa própria história, chegou a hora desse imbecil mostrar porque ganha quase um milhão por mês...