04 fevereiro 2013

Turiassu, 1840 (16)

















Quando moleque, a aventura maior a que me permitia nas arquibancadas do Palestra era avançar por entre a multidão na faixa central, buscando chegar o mais perto possível da bateria da Mancha. No início, ainda juvenil para aquilo tudo, quase nunca conseguia – a malandragem só foi adquirida com a prática, anos de arquibancada depois. Via de regra, eu ficava um pouco mais para baixo e para o lado mais próximo da curva. Mas uma coisa era certa: isso tudo precisava acontecer antes da entrada do time, a tempo de, estando os jogadores em campo, participar da tradicional saudação a cada um dos 11 escolhidos para envergar o manto alviverde.

Eram outros tempos. Era outro futebol. Era outra torcida.

Eram tempos em que até um difícil e longo “Roberto Carlos” ecoava com nitidez desde a piscina até o placar eletrônico. Idem para um “Antonio Carlos”, que deixava a impressão de algumas letras sendo suprimidas pela multidão. “Sampaio” era mais fácil e direto. E, claro, havia aqueles jogadores cujos nomes vinham acompanhados de referências especiais ou de necessárias repetições. Cléber e Zinho, por exemplo, vinham duplicados e precedidos de um “olê, olê, olê, olê” que fazia toda a diferença. Os goleiros, exceção feita a Marcos alguns anos depois, eram chamados só pelo nome mesmo.

O melhor ficava quase sempre para o final. Edmundo, “Animal”, e Evair, “o terror” (ou seria "um terror"?). O grito que consagrou o camisa 9 foi depois indevidamente reciclado para outros centroavantes (e até para meias). O do camisa 7, no entanto, permaneceu único, exclusivo, intacto.

O passar dos anos trouxe poucos ídolos (alguns nem tanto). Já mais para o final da década, chegar até a bateria da Mancha deixou de representar um desafio. Eu já não era mais moleque, e então vivia aquilo tudo com muito mais propriedade, no meio da torcida mesmo, junto à bateria. Foi quando surgiu “o melhor goleiro do Brasil” para aquele que viria a se tornar São Marcos. Anos gloriosos. De Paulo Nunes, Oséas e Euller, por exemplo; todos eles ganharam gritos especiais. Até os laterais e os zagueiros tinham lá algo de diferente.

Com a virada do século, perdeu-se muito da identidade entre torcedor e jogador. Isso, cabe observar, não é exclusividade nossa. O futebol ficou mais, digamos, moderno, os jogadores se tornaram ainda mais vagabundos e descompromissados, ficou mais difícil chamar alguém de “ídolo”. Desde então, muitos foram os períodos sem que os jogadores tivessem seus nomes entoados – quase uma ruptura declarada entre time e torcida. Quando a coisa não descambava para ofensas a um ou outro, havia a indiferença pura e simples, passando do “Verdão querido/ do coração” para o 1-2-3 pré-hino.

Os últimos anos, por sinal, foram ainda mais sintomáticos desta nova realidade. Não me parece exagero dizer que a maior parte dos jogos tem início sem a saudação ao time. Prevalece a indiferença. De tempos em tempos, o rancor fica ainda mais forte. Hoje mesmo, por exemplo, eu não vejo nenhum sentido em perder tempo com a saudação aos 11 que vão a campo com a camisa do Palmeiras. A maior parte não deveria sequer fazer parte do elenco.

E quando parte da torcida canta o nome de um ou outro vagabundo durante o jogo, é sinal de que algo de muito errado está acontecendo.

14 comentários:

César SEP disse...

Grande texto!!

Jogador de futebol hoje em dia não tem NENHUMA identificação com o clube onde joga, isso acontece principalmente no Palmeiras. A única coisa que liga o jogador vagabundo ao clube é um simples contrato.
Contra o penapolense foi tiste ver parte da "torcida" exaltando o Valpinga, Luan etc.
Abs

Anônimo disse...

Meu caro Barneschi,
Sinto essa mesma tristeza, esse mesmo desalento. Lamentável realidade. Só o amor pelo Palmeiras continua intacto. A foto, inclusive, mostrando essa massa compacta de palmeirenses unidos pela mesma emoção, pela mesma expectativa, pela mesma tensão, explodindo de paixão, me deu saudades, muitas saudades...
Grande abraço,

Anônimo disse...

Naquela época, com time bom, em momento bom, a torcida comparecia. Hoje, quando o clube precisa, somente os mesmos poucos no estádio. Realmente lamentável essa situação...

Anônimo disse...

Nossa faz muito tempo que eu não canto nome de nenhum jogador do Palmeiras, em exceção ao São Marcos quando jogava, e creio que não vou gritar nunca mais mesmo com o time em boa fase, mais pelo o futebol moderno mesmo.

Abraço

Halan Vieira

vitor disse...

discordo, nos ultimos anos vários foram os ídolos da gde maioria da torcida.

love, pedrinho, magrão, kleber, valdivia, keirrison, assunção, luan, scolari...até o belluzzo foi ídolo de mta gente. Meu Deus, parem as máquinas!!! como diria avallone e a lenda das alamedas, maníaco.

por fim, faltou mencionar o melhor grito de todos. ninguem, joga mais q o basílio.

uirimatá disse...

po cara

cade o post sobre a ausencia de jogos do Palmeiras na tv aberta?????


vai ficar até quando com saudosismos????

a vida continua po

Rafael disse...

Foto magnífica de um jogo estupendo. Palmeiras 3x2 Fluminense, em 2006.

Neste momento o estádio inteiro agitava as camisas. Não havia ainda o setor Visa, e acho que até alguns da numerada tiraram a camisa. Incrível.

cesar disse...

Cara, mais uma vez me identifiquei MUITO com o seu texto!

Passei a ter esse objetivo de chegar perto da Bateria nos anos 00, nos anos 90 ia com meu pai ao Palestra, e algo que a gente costumava fazer muito nos jogos de quarta-feira à noite era assistir ao primeiro tempo do lado das piscinas e o segundo do lado da curva, sempre acompanhando o ataque. Claro que quando o estádio não estava cheio, mas naquele tempo com 17 mil dava pra conseguir lugar folgado, e dez anos mais tarde quando dava 17 mil no Palestra tds comemoravam que o estádio estava lotado...

Melhor ainda era chegar cedo e comer os lanches lá embaixo, e mais anteriormente ainda, ver meu pai descer para pegar as cervejas...

Podem falar que é saudosismo, mas os anos 90 foram os últimos do verdadeiro futebol! Parece que num passe de mágica, o século virou e os comportamentos mudaram, nos impuseram novos costumes sim, e o pior foi ver a maioria aceitar essas imposições...

Uma época que gritávamos os nomes dos jogadores por confiança, respeito e admiração, sabíamos que eles iriam nos representar em campo, e eles sabiam que nós estaríamos lá cantando o jogo inteiro, e NUNCA, NUNCA ousaram proferir qualquer palavra nociva contra a nossa Torcida! Essa era a diferença...

CASSELLl disse...

Como sempre, puta texto, em especial pq eu vivi muito isso. Lembro-me na final do brasileiro de 93, com meus 11 anos, deixando meu pai e meu avô para trás para ir assistir o jogo na Mancha.
Lembro-me também a primeira vez que senti o cheiro da erva no estádio. No meio da Mancha, os mili duk ficaram carburando na minha nuca e fiquei todo empipocado....kkkk....já hoje....

Pena que não sinto mais este ímpeto e euforia em ficar na Mancha...

GilMackoy disse...

Verdade é que passa longe da metade estes que estão aí hoje envergando o manto alviverde que representam com raça o que é a SEP.
Bando de vagabundos mercenários.

Raoni Machado disse...

Que se foda TV aberta! Vamo pro estádio porra!

Infelizmente não peguei os anos 90 no estádio, só peguei os malditos anos 2000 em diante!

Barneschi disse...

Uirimatá
Já escrevi sobre isso em 2012 e também no post com a tabela deste ano do Paulista e da Libertadores. Não me importo muito com a TV aberta de qualquer forma. De resto, todos sabem o que penso da maldita Rede Globo.

Em um contexto mais amplo, é importante desmistificar uma percepção equivocada e bastante comum, a respeito da média de público que tínhamos nos anos 1990 e a que temos agora. Vou levantar os números, mas, em muitos momentos, a média dos anos 2000 e dos 2010 é superior à dos anos 1990.

Abraços

uirimatá disse...

eu nao sei o que voce pensa sobre a rede globo

será que é tao dificil fazer um post sobre isso????

Barneschi disse...

Escreve aí e eu publico, cara.