07 agosto 2012

Turiassu, 1840 (14)





















A mãe nunca aceitou aquele Mendonça imposto pelo pai, e o próprio moleque não fazia questão de ser chamado pelo nome composto. Preferia Jorge. Só Jorge. Acontece que o Mendonça estava lá, herdeiro da promessa feita por Etore ao raiar daquele 18 de agosto de 1976. O primogênito que estava por nascer ganhou nome e sobrenome logo mais à noite, no toque de cabeça certeiro de Jorge Mendonça, 39 minutos passados desde o apito inicial e sob os olhares de 40.283 pagantes, público nunca antes e nunca mais visto por ali.

Mal sabia o pai que aquele gol selaria o último título que ganharíamos pelos 16 anos seguintes. Assim foi. E Etore, como de costume e dessa vez torcendo para que o rebento não viesse antes da hora, assistiu àquele histórico 1-0 da janela de seu apartamento, com a vista privilegiada que só tinham alguns poucos moradores dos fundos do pequeno prédio residencial da rua Padre Antônio Tomás, quase dentro do histórico campo palestrino. Para morar ali, Etore desembolsou uma considerável quantia para a segunda metade dos anos 1960. E de lá nunca saiu. Por dinheiro algum.

Filho de italianos da pequena cidade de Polignano a Mare, na região da Puglia, havia morado antes no Brás, no Bixiga e na Barra Funda, como se necessário fosse cumprir tão típico roteiro. Uma vez adulto, passou a maior parte da vida naquele pequeno apartamento vizinho à sua maior paixão. Jorge Mendonça nasceu e cresceu ali. Aprendeu a torcer pelo Palmeiras vendo o pai e dele herdou o hábito de se posicionar à janela apenas cinco minutos antes de cada jogo, uma garrafa de Antarctica à mão (nunca bebeu outra marca), copos para cada uma das habituais visitas.

Visitas que, diga-se, eram controladas, uma vez que o espaço perto da janela era um tanto exíguo. Cabiam ali Etore, Jorge à sua direita e talvez mais uma pessoa. Outros - e eles sempre apareciam nos jogos com casa cheia - tinham de olhar por trás deles ou ali pelos cantos da janela, se a cortina assim permitisse.

O jogo transcorria logo abaixo. Dois jogos, na verdade: havia aquele entre as quatro linhas e outro fora delas, na arquibancada, visível em sua plenitude. Etore, nos devaneios típicos de qualquer torcedor que se preze, sempre se portou como um maestro invisível da multidão.

De sua janela, ele viu o Palmeiras vencer aquele título de 1976, a Libertadores e outros mais, todos guardados em sua memória até o último dia de vida. Acompanhou vitórias grandiosas e vexames improváveis, títulos e humilhações, partidas notáveis em domingos ensolarados e duelos obscuros em noites chuvosas. Presenciou esquadrões inesquecíveis e times que não mereciam ter pisado em solo sagrado. Torceu por craques que fizeram história e suportou alguns que não deveriam nunca ter vestido o manto alviverde. Vibrou igualmente com e por cada um deles.


















Ídolos passaram diante de sua janela. A história alviverde se construiu jogo após jogo, ano após ano, Etore, Jorge Mendonça e o prédio da Padre Tomás como testemunhas. O Campeão do Século XX se exibiu semanalmente logo abaixo deles. Gerações e mais gerações por ali passaram. Pais, filhos, netos, agregados, famílias inteiras unidas pelo amor ao Palestra.

Jorge aprendeu a ver o Palmeiras de dentro de casa. Um inusitado 'torcedor de sofá'. Cresceu e criou família sem nunca ter pisado na arquibancada do Palestra. Não por nada, sequer pela economia de não precisar pagar ingresso, mas é que se acostumou àquela rotina de abrir a janela e ter literalmente a seus pés o bom e velho estádio Palestra Italia. Com chuva ou sol, lá estavam ele e o pai. Nos mesmos lugares, o mesmo sofá - que a mãe insistia em querer trocar -, o mesmo cardápio - que passou a fazer ainda mais sentido depois de proibirem a venda de cerveja dentro dos estádios.

















Etore se foi antes de saber que um dia o velho Palestra Italia viria abaixo. Viu surgir o alviverde imponente quase 1.500 vezes. Deixou como herança o velho apartamento da Padre Tomás, alguns princípios inabaláveis que forjaram o caráter do menino Jorge Mendonça e, acima de tudo, a palestrinidade.

Diante do velho edifício residencial, erguido no final dos anos 1950, o estádio que se abriu para algumas das maiores glórias da Sociedade Esportiva Palmeiras disse até breve. Jorge acompanhou a despedida do lugar de sempre, atônito, o inconformismo presente no olhar. Viu desabar cada pedaço da arquibancada que ele conhecia como poucos - mesmo sem nunca ter colocado os pés nela. Do alto, era capaz até de identificar as rachaduras e os diferentes tipos de cimento que compunham toda aquela enorme estrutura.

Tudo veio abaixo. Testemunha de meio século da história alviverde, o pequeno edifício da Padre Antônio Tomás ali ficou, intacto, como que a esperar pelo que vem pela frente. E agora, um sobrevivente em meio aos sopros de modernidade que assolam a metrópole, observa o gigante de concreto ressurgir. Mais gigante do que nunca. Tanto que não mais permitirá a Jorge acompanhar tudo da janela de casa.

Difícil controlar a expectativa. Jorge acompanha a obra em seus mínimos detalhes. Chega a vibrar com cada viga que se levanta e quase grita "gol" a cada novo lance da arquibancada. Se antes Etore se sentia o maestro invisível da multidão, agora é a vez de seu único filho fazer as vezes de mestre-de-obras daquelas centenas de homens que vão devolver a nossa casa. E tudo o que ele mais quer é poder enfim colocar os pés na arquibancada que conheceu como poucos. A vida segue. O pequeno Marcos acaba de chegar. Hora de transmitir o sentimento para uma nova geração.





























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Créditos das fotos:

1. Foto gentilmente cedida pelo mestre Ezequiel, histórico e historiador palestrino. Palmeiras 5-1 Santos/SP, 29.11.1959. O prédio da Padre Tomás começa a tomar forma.

2. Outra imagem do mestre Ezequiel. Palmeiras 1-0 Náutico/PE, 12.02.1967, despedida do grande Julinho Botelho. Está lá o edifício como testemunha.

3. Essa eu peguei no Portal Lumière.

4 e 5. Fotos do La Nostra Casa.

15 comentários:

Sandro - Salvador/BA disse...

Caro,
Quando eu me comecei a me conhecer por gente, ainda na Zona Leste paulistana, Jorge Mendonça era o nome que eu gritava ao chutar a bola no quintal de minha casa.

Baita texto.

Abraço.....Sandro

Dimas Junior disse...

Barneschi...

Não tenho o prazer de te conhecer pessoalmente, e, nem sempre (Democraticamente...), "fecho" com tuas ideias, mas, no más, somos irmanados por um mesmo sentimento, pelas mesmas cores... Daria, com prazer, meu braço direito para ter escrito isso... Forte abrazo...

Vitor Forcellini disse...

Sempre que ia no Palestra eu ficava imaginando como era ver o jogo da janela de um daqueles prédios. Tinha o sonho de quando crescer morar ali, do lado do bom e velho Parque Antarctica. Muito bom o texto!!!

Washington Santos Cruz disse...

òtimo texto... Saudades do Palestra Itália...Saudades de ver um jogo do Palmeiras aqui em Sampa....estão querendo fazer de nós um time itinerante como guaratinguetá/americana e gremio barueri/prudente...è foda termos um presidente que pensa pequeno e que está tentando apequenar o Palmeiras e sua gigante torcida

Raoni Machado de Souza disse...

Momento Nostalgico!

Pensar que eu achava ruim ir andando da Barra Funda até o Palestra..

Rafael disse...

ótimo texto.

já deve ter passado pela cabeça de todo palmeirense morar em um destes prédios com visão para o campo.

mesmo agora com o estádio mais alto e coberto, ainda é um lugar privilegiado. só dar uns passos e já está no estádio!

um dos melhores textos da série, justamente por abordar uma visão diferente do Palestra.

Anônimo disse...

Sempre tive vontade de assistir jogos daquele prédio!
Excelente texto!

Vinícius Andrade disse...

Barneschi:

Se os ditos "profissionais da imprensa" escrevessem igual a você, este país seria totalmente diferente!

Grande Texto!!!

Scoppia!

CASSELLl disse...

Vai se fuder Barneschi, me fez chorar.....

claudinei rockwood disse...

belo sintaxe, texto coeso e muito bem distribuido

parabéns.

''Há três coisas na vida que voce só faz uma vez: nascer, morrer e votar no PT''(C.Rockwood)

Thiago Nunes Cunha disse...

òtimo blog, ajuda ae a divulgar a petição publica para a volta dos jogos em são paulo http://www.peticaopublica.com.br/?pi=palestra Chega de Barueri! ASSINEM AE GALERA

Rafael disse...

Boa, Thiago.

Já assinei.

Raul Martins Dias disse...

Sempre quis ter um apartamento naqueles prédios do lado do estádio. Não para morar, até porque eu moro a mais de 1000km do templo sagrado, mas para ver os jogos de lá. Se bem que eu acho que nada se compara a estar lá dentro do estádio mesmo.

Conrado disse...

tive o prazer de assistir a um jogo do terraço desse prédio. e a sorte de ser um jogo especial: os 2x0 contra o marília, pelo quadrangular da série B.

foi provavelmente a noite em que a torcida fez a festa mais linda em toda a história do palestra, com aquelas faixas por toda a extensão das arquibancadas e numeradas completamente tomadas.

para completar, la pelos 15 do segundo tempo, chegou ao terraço o cesar maluco. eu nao era socio do clube e nunca o tinha visto de perto, fiquei alucinado. e o cesar ja devia ter tomado varias no primeiro tempo em outro lugar, chegou bebaço. foi uma noite muito especial.

hoje o pessoal do tal predinho deve estar vivendo em agonia. que ironia.

Gersinho Rodrigues disse...

Sensacional, Barneschi. Puta texto e um contexto maior ainda.

Palmeiras é Palmeiras, do Etore, do Jorge Mendonça, seu e meu. Palmeiras minha vida é você!