16 setembro 2013

Turiassu, 1840 (20)











Qual é a melhor pizza de SP?

A pergunta é difícil - há dezenas, talvez centenas, de respostas possíveis -, mas eu vou cravar a minha: Papa Genovese.

Não que eu seja especialista no assunto, mas é que nenhuma outra boa pizzaria desta metrópole poderia me proporcionar tantas e tão boas lembranças quanto aquela que outrora ocupava a esquina da Turiassu com a Cayowaá.

Porque foi ali, entre rodadas de chope que eu quase nunca pude aproveitar (a idade não permitia), carpaccios e infindáveis sabores de pizza, que eu senti o gosto de vitórias grandiosas e me dei conta de fracassos até hoje não digeridos.

Ali, minutos depois do jogo, tomava-se contato - por meio das então modernas telas planas de 29" - com as imagens pasteurizadas do que acabáramos de viver em toda a sua plenitude na arquibancada. Os nossos gols - e os dos adversários -, as falhas individuais, as grandes defesas, os muitos gols perdidos, o apoio da massa, os tantos roubos de que fomos vítimas dentro de casa...

Nas vitórias, a pizzaria parecia pular a cada gol, a cada lance de perigo, a cada lembrança boa que acabava de se consolidar em nossas mentes. Nas derrotas, lamentava-se os erros, os roubos, as más atuações. Entre margheritas, sicilianas e tantos queijos, cada momento voltava a ser vivido com a nitidez que nem sempre (ou quase nunca) existe no campo.

O curioso é que lembro com mais clareza dos insucessos e tropeços na Papa Genovese do que propriamente das vitórias. Não sei dizer o motivo, mas talvez seja o fato de as derrotas terem de ser digeridas, e então já se fazia tudo de uma vez, ali mesmo. Mas a coisa toda parecia mais propícia a um tom de lamentação tão particular do palmeirense: reclamar da substituição feita pelo técnico, maldizer o atacante que perdera um gol feito, já traçar o prognóstico para a rodada seguinte, acompanhar os minutos finais de um jogo de algum rival que começara mais tarde... tudo acompanhado por uma belíssima pizza, claro.

Tanto é assim que me recordo do comentário que meu avô fez em algum momento da madrugada de 17 de junho de 1999: "Você está tão quieto... nem parece que fomos campeões". Eu não soube explicar; mas é que lutamos tanto e foi tão difícil chegar àquele momento que eu troquei a felicidade por um alívio sem tamanho. O tamanho daquela vitória eu só viria a entender bem depois...

A partir da Papa Genovese, em especial daquela varanda lateral, era possível acompanhar a Turiassu se esvaziando devagar, a iluminação do Palestra persistindo por algum tempo, torcedores comendo os seus sanduíches de pernil, outros esperando o ônibus, o trânsito se dispersando lentamente, a madrugada tomando conta da metrópole, alguns bêbados isolados aqui e ali, o silêncio se fazendo notar... o gigante estádio Palestra Italia adormecendo pouco a pouco.

Até que um dia resolveram derrubar aquele lugar para construir uma loja de móveis. Errado, muito errado...

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Agradecimentos especiais ao meu tio, que sempre me levava para jantar lá depois dos jogos (foi quando eu aprendi a gostar de carpaccio e da pizza romana), e ao meu avô, pela companhia nas poucas e boas vezes em que vinha do interior para ver o Palmeiras.

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A imagem que abre o post evidentemente não é a ideal, mas parece não existir na rede nenhuma foto da fachada da Papa Genovese. Nenhuma. Em sendo assim, tive de apelar para a única imagem disponível, um informe que o grande mestre Ezequiel foi encontrar em um antigo tabloide do Palmeiras.

Se alguma boa alma tiver uma foto daquela tão saudosa fachada, peço que me envie, por favor.

7 comentários:

Samir Kelvin disse...

É Assim que me sinto hoje com o Dissidenti , é uma experiência unica de sentimentos que deixa Lembranças boas ou amargas ,mais o importante é as Lembranças ...

Aliás cada estabelecimento da Turiaçu x Caraíbas ,me traz lembranças e o sentimento de isso aqui é meu, desde o meu primeiro jogo em 2007 até hoje.

Mas nenhum tem uma Mística tão grande como o Dissidenti, eu me identifiquei com o local , com as pessoas .
e faço um agradecimento a você Barneschi , que foi , graças a você que conheci a Sede !

Raul Martins Dias disse...

Tenho lembranças bacanas da Papagenovese. Uma vez, em dezembro de 2005, pouco depois do fim do Zveitão, quando eu estava passando as festas de Ano-Novo em São Paulo, foi lá que eu encontrei pessoalmente pela primeira vez um grupo de palmeirenses que havia conhecido pela Internet. Pouco mais de uma hora regada a boa pizza e muita conversa sobre o Verdão.

Anos depois, quando finalmente atingi uma condição financeira que me permitisse, pelo menos de vez em quando, pegar o avião e ir ao Palestra Itália ver os jogos do Palmeiras, a primeira coisa que procurei foi a Papagenovese. E ela não estava mais lá.

Parabéns pelo post. Aliás, por toda essa série "Turiassu, 1840", que é fantástica.

Bruno Lauria disse...

Barneschi, o filho do dono (pelo menos de um deles, não sei se eram vários) da Papa Genovese se formou comigo na faculdade.

Vou tentar retomar o contato e ver se consigo alguma imagem para ilustrar o belo post.

Abraço.

Anônimo disse...
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Emeagá disse...

Adorei o texto..me senti comemorando com os amigos e apreciando uma bela pizza.

Emilio Leite disse...

Merecida lembrança Barneschi. A única vez que eu fui no Papa Genovese foi antes da partida nas quartas de final do brasileirão de 98 contra o Cruzeiro. Na época eu ainda não podia beber também..rsrsrs
Neste jogo fomos eliminados no fim (2 X3) depois de termos buscado o empate (acho que vem daí minha raiva dos marias) e eu concordo com você sobre as derrotas serem mais marcantes...Minhas principais lembranças são de derrotas.
Abraços,
Avanti Palestra

Anônimo disse...

Bela lembrança! Assim como o saudoso Bar do Elias na Caraíbas, a Papa Genovese foi um lugar onde a palestrinidade pulsou muito forte.

Mas, felizmente, o entorno do Palestra a muito se tornou um ambiente onde futebol e boêmia se encontram frequentemente.

Não vejo a hora de voltar a alternar os rituais antes e pós jogo no bar da passarela Arrancada Heroica, ou no Bar do Alemão e na padoca na Av. Antártica... ou ainda na L'osteria... rsrs

Enfim, opções não faltam.

Eduardo