02 junho 2011

Turiassu, 1840

Tenho evitado ir ao lugar que sempre foi a minha segunda casa. A dor de ver um enorme vazio bem naquele espaço onde passei alguns dos melhores momentos da minha vida não é nada fácil de encarar. Não estou indo ao clube (embora continue pagando as mensalidades normalmente), fujo de qualquer encontro ou reunião lá dentro e procuro sempre não deixar o olhar escapar para a direita quando passo pela Turiassu. Difícil conseguir. E aí, quando vejo aquilo tudo, não dá para segurar as lágrimas.

Divido então com vocês o brilhante e incomparável texto de Ugo Giorgetti, publicado no domingo último em O Estado de S.Paulo. Resume muito do que eu sinto - e, imagino, vocês também:


O que se vê da rua
*Ugo Giorgetti

Ninguém passa indiferente. Operários, gente do povo, gente que apenas espera o ônibus, executivos, senhoras carregando sacolas cheias de compras, todos param um instante e olham. Muitos param mais tempo.

Ficam colados à grade apenas olhando, creio que esses sejam os torcedores. Não falam, quase ninguém fala. Apenas um e outro arrisca algum comentário rápido, furtivo. Não propriamente melancólicos, mas sérios. Aparecem às vezes trazendo consigo crianças e, então, crianças e adultos se perdem na mesma silenciosa contemplação. Diante deles estão as ruínas. Pedaços enormes de concreto e cimento que se amontoam, e entre esses restos, algumas partes ainda intactas da antiga e majestosa construção. Só na solidão, só quando estão vazios e abandonados é que certos espaços adquirem sua verdadeira dimensão. E o lugar parece cada vez maior a medida que máquinas e homens o destroem. Até a semana passada tudo era silêncio e abandono nas ruínas. Houve, por razões obscuras, uma pausa, uma suspensão dos trabalhos e, com os dias, as ruínas começaram a adquirir um aspecto de permanência, quase de eternidade, como um Coliseu deslocado nos trópicos. Esta semana, subitamente como tinha parado, o movimento dos destruidores recomeçou.

Os passantes, indiferentes às obras paradas ou não, seguem olhando, paralisados, em silêncio. Muitos deles talvez nunca tenham antes entrado naquele espaço. Muitos deles talvez estejam vendo esse mítico lugar pela primeira vez nessas estranhas circunstâncias, como se fossem convidados a assistir a autópsia pública de alguém muito famoso.

Outros, porém, claramente o conheceram bem. Vejo pessoas procurando com os olhos o lugar onde costumavam se acomodar. Da rua, agora, pode-se ver tudo. Alguém teve a sinistra ideia de primeiro derrubar o que impedia a visão de quem olha da rua.

Tudo o que era apenas adivinhado, pelos gritos e exclamações, tudo o que apenas o som da multidão contava, agora pode ser visto. E as pessoas na rua olham fixamente o campo, ou o que restou dele. O gramado já não se vê mais. Um mato miúdo cresceu em primeiro plano, e nada se pode ver depois dele. Se, pelo menos, ainda restassem as traves, alguma orientação seria possível, mas não há mais traves.

Podem ser vistas ainda, ironicamente, apenas duas armações de acrílico, curvas, feias, destinadas a proteger o banco de reservas da chuva e de outros materiais mais sólidos atirados pela torcida. Sobre essas horrendas armações, bem visíveis, o nome de um patrocinador ainda nítido, como se fosse a única coisa permanente no meio de tanta coisa que se vai.

O que não deixa de ser a verdade do momento em que vivemos.

Como os outros passantes, também paro e olho. Procuro eu também o lugar em que costumava sentar. Estico o pescoço em busca dele. Não há mais nada.

Posso ver, no entanto, outros e familiares lugares. A curva majestosa sob o placar ainda está lá, suja e descuidada como um condenado à morte. No meio dela, vestígios do placar com o distintivo glorioso do clube milagrosamente intacto. Da curva, meu olhar vai para o resto da arquibancada, a antiga geral, onde se aglomerava o povão, as organizadas, no centro do campo, o melhor lugar do estádio. Parte dela se equilibra precariamente, outra parte já ruiu, simbolicamente e, de novo, ironicamente, o lugar exato onde ficava a principal torcida organizada.

Não sei o que pensar, não sei o que estamos perdendo. Mas estamos. Toda destruição é uma perda.

Talvez os peregrinos que vão até esse lugar e se apoiam na cerca olhando a devastação estejam procurando avaliar o que estão perdendo. Porque as marteladas não podem atingir as memórias e tenho certeza que diante de todos, torcedores do clube ou não, ao passar por esse lugar alguma coisa os atinge, como quem atravessa algum célebre campo de batalha, lendário, fabuloso. Lá se travaram grandes duelos, lá houve grandes vitórias, grandes conquistas e grandes derrotas. Desfilaram por lá as maiores equipes do Brasil e da América do Sul em combates inesquecíveis. Lá foi o estádio de um grande. Fica na Rua Turiaçu, Perdizes.

21 comentários:

Venancio Alves disse...

Passo na frente do Palestra TODO dia á caminho do trabalho.
E TODO dia fico com um misto de alegria/ dor/angústia/tristeza e esperança.
Ver um dos principais palcos da minha infância e minha vida no chão dói muito, TODO dia.
Mas ao ver as estruturas metálicas sendo erguidas(por enquanto dos outros edifícios do clube enão do estádio propriamente dito) dia após dia me conforta um pouco e transforma essa pontada de tristeza em alegria.

RAÇA VERDÃO !!

Anônimo disse...

Ainda bem que demoliram aquilo, pois, estava caindo e condenado. Além é claro...das péssimas infraestruturas dentro dele...realmente, muito ruins mesmo...Enjoei de tomar chuva,sol, ir a banheiros imundos que pareciam que eu estava na Africa. Triste dizer mas, um horror !
Graças a Deus que daqui a 2 anos teremos uma Arena digna com as pro clube e sua torcida. Espero que venha a dar tudo aquilo que o velho e arcáico palestra não dava, ou seja: CONFORTO, SEGURANÇA, DINHEIRO E MENOS DESPESAS PRO CLUBE E CLARO: UM BANHEIRO DECENTE.
E se possível for...EXTERMINAR A TURMA DO AMENDOIM, O MUSTAFÁ E MUITOS ITALIANOS QUE AINDA ESTÃO POR LÁ...ENCHENDO O SACO NO CLUBE, APEQUENANDO O MESMO E FAZENDO O PALMEIRAS UM CLUBE SOMENTE DE COLONIA...ASSIM ESPERO ! POIS, O PALMEIRAS HJ NÃO É MAIS UM CLUBE DE COLONOS ITALIANOS...É DO POVO BRASILEIRO EM GERAL.

SAUDAÇÕES PALMEIRENSES...

Zoinho disse...

Desculpa Sr.Anonimo, mas vc é um imbecil, e se não quer tomar chuva não vá ao estádio !!
É lamentavel ter pessoas que pensam como vc na nossa torcida, e até o mais chato dos amendois tem mais direito de falar do que vc !!
Chamar nossa casa de "aquilo" é uma afronta.
Se alguem deve ser exterminado, com certeza vc encabeça a lista !!

Saudações

Zoinho

Rafael Kuvasney disse...

fui comentar, mas o Zoinho já falou o que tinha pra falar. Anônimo, fique em casa. Pague o pay-per-view e divirta-se com sua cerveja gelada e seus amigos playboys. Ou assista aos jogos em Campos do Jordão, sua cara! Deixe a arquibancada pra quem gosta de futebol.

Gabriel Manetta Marquezin disse...

caralho, não tem como não se emocionar lendo isso, é de encher os olhos....

reforço o conselho de quem puder, não medir esforços para assistirem ao Primeiro Tempo hoje, assistir e não chorar é um desafio.

quanto ao anônimo, já deveria ter pulado o muro da Marques de São Vicente....

Marcello disse...

Já saí de GOIÂNIA de carro para ver jogo do PALMEIRAS debaixo de chuva no PALESTRA e me vem um cara pra reclamar de "precariedades" do nosso Templo.
Há torcedores e TORCEDORES.
Santa paciência...
Saudações!

Nicola disse...

Outro dia levei minha avó num consultório médico, numa travessa da Avenida Antártica... O prédio era relativamente afastado do Palestra, então nem passou pela minha cabeça que desse pra enxergar algo do estádio, ainda mais com a demolição que já tinha se iniciado fazia um bom tempo.

O consultório era no 14º andar, e logo que entramos no lugar, dei de cara com uma janela bem grande, e conforme fui me aproximando deu pra ver exatamente o placar eletrônico, com os escudos do Palmeiras/Palestra logo abaixo, e um pedaço da arquibancada. Só esperei minha vó entrar e fiquei ali, debruçado sobre o para peito, olhando fixo praquele pedaço do Palestra, intacto, com todos os vestígios da reforma/demolição encobertos, como se o estádio estivesse ali, inteiro. Uma hora as as lágrimas vieram, e um senhor que estava ali ao lado sentado esperando, ao me ver chorando, se levantou e veio na minha direção, também com os olhos marejados. Ficamos ali durante uma meia hora conversando, e ele contando das idas dele ao estádio, da década de 60 em diante... Uma pena eu não ter levado nem o celular pra bater um foto dali, se bem que o lugar era bem afastado, acho que só com uma câmera mesmo...

Apesar de toda essa mudança, dessa ausência dos jogos no Palestra, vou lembrar desse dia como uma das minhas memórias de estádio. E sempre que eu estiver ali, vou ter certeza que alguma coisa ficou, mesmo sendo apenas na nossa memória... PRA SEMPRE PALESTRA!

Abraços e até sábado...

Fabiano 1914 - Jundiaí disse...

É TRISTE... MUITO TRISTE... SIMPLES ASSIM

Cintia D Camargo disse...

Dificilimo ver algo que gostamos no chão, e tenho certeza de que, da mesma forma que meus olhos marejaram com este texto, muitos torcedores tambem assim ficaram...
Infelizmente, existem "torcedores" babacas que falam asneiras... São bem do tipo que usam a camisa do time só em dia de jogo ou apenas quando o time é campeão em algum campeonato... Ou, pior, só usam a camisa se combinar com o tenis ou boné novo que o papai acabou de comprar... O torcedor real, fica embaixo de chuva; se precisar, anda muito à pé para assistir o jogo e principalmente, AMA o time por sua historia e suas conquistas e nao por seu comodismo e conforto.
Sou palmeirense e esposa de palmeirense e já fui em muito jogo no Palestra, frequentamos tanto arquibancada quanto o setor visa e em nenhum momento passamos "apuros" com nada lá dentro... Se o amigo aí acha que estadio bom é o europeu, compra uma passagem e muda pra lá!
;-)

Luiz disse...

PQP, que texto!

Bruno disse...

Maldita Copa do Mundo 2014!

siamopalestra disse...

Só um palmeirense poderia escrever estas palavras. Passar na Turiassú, 1840 se tornou um ritual saudosista.

Um misto de alegria, saudades, angústia... um misto de emoções em verde e branco.

Vai, Palestra!

ROJAS.

Luigi SEP 1914 disse...

Sem palavras!
É isso que faz o PALMEIRAS ser PALMEIRAS!
Não precisamos de títulos, de craques gordos em fim de carreira, dinheiro público pra estádio para sermos reconhecidos. Somos PALMEIRAS, e isso basta!
Hoje a noite, museu do futebol...

Aqui é PALMEIRAS!

Ivan disse...

Vá a merda tudo! Tiraram nosso estádio... próximo passo qual será? Vender o clube para algum milhonário?
Malditos sejam, todos!

Quero o Palestra de volta, de cimento, descoberto, pequeno e arcaico, quero o Palestra NOSSO.

rivaldo disse...

Essa aqui poderia entrar para a série "O país do futebol?". Dêem uma olhada:

http://www.lancenet.com.br/futebol-internacional/Messi-agredido-torcedor-restaurante_0_491950986.html

Abraços

filipi disse...

Só é eterno aquilo que se renova

Anônimo disse...

Porra eu trabalho nos prédios da frente na Matarazzo. Acompanho a porra da obra todo dia da minha mesa. Dói muito, muito, muito ver o Palestra em ruínas. Mas para não fugir das nossas origens e o pionerismo nos trará o melhor estádio do Brasil.

O Ugo é um puta palmerense.

Avanti Palestra, fino alla morte.

Casselli o Carcamano

Myself disse...

Amigos, alguem viu essa noticia?

http://www1.folha.uol.com.br/esporte/924850-temendo-pelo-palmeiras-vereador-quer-tombar-derbi-paulista.shtml

O que acham?

Anônimo disse...

belíssimo texto!!!

Agora, vcs viram um vereadorzinho de merda tb tirando barato da cara do Palmeiras?...porra, e a diretoria nao faz nada...é foda!..
vejam aqui:
http://www1.folha.uol.com.br/esporte/924850-temendo-pelo-palmeiras-vereador-quer-tombar-derbi-paulista.shtml

e aqui está o blog deste dignissímo cidadão que representa os moradores de SP - http://www1.folha.uol.com.br/esporte/924850-temendo-pelo-palmeiras-vereador-quer-tombar-derbi-paulista.shtml

Porco CARECA!

Anônimo disse...

Já com ingresso para a peleja.

Avanti Palestra, fino alla morte

Casselli

Forza Palestra disse...

Fui acompanhando todos os comentários aí, e agradeço aos palestrinos todos que mandaram à merda estes babacas que não entendem o que é defender a própria história.

Valeu!