26 fevereiro 2013

"Futebol ao Sol e à sombra"

O jornalista e escritor uruguayo Eduardo Galeano tem mais de 40 livros publicados, com temáticas diversas. Recomendo toda a sua obra, mas, levando em conta o que interessa para este blog, obrigatório mesmo é "Futebol ao Sol e à sombra". É um livro de crônicas, repleto de uma melancolia que tão bem se aplica a um fim de tarde pós-futebol em Montevideo.

Pois Galeano dedica boa parte do livro a uma interpretação saudosista de um futebol que deixa de existir a cada dia que passa. Publicada em 1995 (e hoje disponível com atualizações que compreendem pelo menos mais uma década depois disso), "Futebol ao Sol e à sombra" é composto de pequenas crônicas e contos, um atrás do outro.


























Em ordem cronológica, o livro cobre quase toda a história do futebol, do surgimento à primeira metade dos anos 1990 (a edição atualizada traz ainda textos complementares sobre as Copas de 1998, 20002 e 2006). O foco principal é o futebol que se pratica às margens do Rio da Prata (ou seja, do seu Uruguay e da Argentina vizinha), mas há muito espaço também para o futebol do Brasil (do Rio em especial).

Há momentos que beiram a poesia, mais notadamente nos capítulos iniciais, que se dedicam a fazer um apanhado pouco convencional dos primórdios do futebol. Residem aí os melhores trechos da obra. Os diferentes aspectos do jogo são apresentados de maneira esquemática e bastante direta: "O futebol", "O jogador", "O goleiro", "O técnico", "O árbitro", "A bola" etc.

Como este trecho aqui, em "O torcedor":

"Quando termina a partida, o torcedor, que não saiu da arquibancada, celebra sua vitória, que goleada fizemos, que surra a gente deu neles, ou chora sua derrota, nos roubaram outra vez, juiz ladrão. E então o sol vai embora, e o torcedor se vai. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nos degraus de cimento ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de fogo fugaz, enquanto vão se apagando as luzes e as vozes. O estádio fica sozinho e o torcedor também volta à sua solidão, um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se perde, e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de cinzas depois da morte do carnaval."

Ainda melhor é o relato contido em "O estádio", ele todo já reproduzido por este blog em 2010, por ocasião de mais um post sobre o assassinato do Maracanã:

"Você já entrou, alguma vez, num estádio vazio? Experimente. Pare no meio do campo, e escute. Não há nada menos vazio que um estádio vazio. Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém. Em Wembley ainda soa a gritaria do Mundial de 66, que a Inglaterra ganhou, mas aguçando o ouvido você pode escutar gemidos que vêm de 53, quando os húngaros golearam a seleção inglesa. O Estádio Centenário, de Montevideo, suspira de nostalgia pelas glórias do futebol uruguaio. O Maracanã continua chorando a derrota brasileira no Mundial de 50. Na Bombonera de Buenos Aires, trepidam tambores de há meio século. Das profundezas do estádio Azteca, ressoam os ecos dos cânticos cerimoniais do antigo jogo mexicano de pelota. Fala em catalão o cimento do Camp Nou, em Barcelona, e em euskera conversam as arquibancadas do San Mamés, em Bilbao. Em Milão, o fantasma de Giuseppe Meazza mete gols que fazem vibrar o estádio que leva seu nome. A final do Mundial de 74, ganho pela Alemanha, continua sendo jogada, dia após dia e noite após noite, no estádio Olimpico de Munique. O estádio do rei Fahd, na Arábia Saudita, tem palco de mármore e ouro e tribunas atapetadas, mas não tem memória nem grande coisa que dizer."

Vale ainda destacar um trecho de "História de Fla-Flu", de um sentimento que certamente se aplica a quaisquer outros clássicos disputados no Brasil ou no mundo. A escolha deste duelo específico talvez se dê pela sonoridade do nome ou pela ambientação no Rio de Janeiro; faz sentido que seja assim:

"Desde então, pai e filho, filho rebelde, pai abandonado, dedicam-se a se odiar. Cada clássico Fla-Flu é uma nova batalha desta guerra de nunca acabar. Os dois amam a mesma cidade, o Rio de Janeiro, preguiçosa, pecadora, que languidamente se deixa querer e se diverte oferecendo-se aos dois sem se dar a nenhum. Pai e filho jogam para a amante que joga com eles. Por ela se batem, e ela vai aos duelos vestida de festa."

Fechamos assim:

"Uma jornalista perguntou à teóloga alemã Dorothee Sölle:
-Como a senhora explicaria a um menino o que é a felicidade?
-Não explicaria - respondeu - Daria uma bola para que ele jogasse.
O futebol profissional faz todo o possível para castrar essa energia de felicidade, mas ela sobrevive apesar de todos os pesares. É talvez por isso que o futebol não pode deixar de ser assombroso. Como diz meu amigo Angel Ruocco, isso é o melhor que tem: sua obstinada capacidade de surpresa. Por mais que os tecnocratas o programem até o mínimo detalhe, por muito que os poderosos o manipulem, o futebol continua querendo ser a arte do imprevisto. Onde menos se espera salta o impossível, o anão dá uma lição ao gigante, e o negro mirrado e cambaio faz de bobo o atleta esculpido na Grécia."

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Onde comprar: em qualquer grande livraria. Eu comprei na Cultura do Cj. Nacional (Av. Paulista), mas já encontrei também em outras redes (Fnac, Saraiva etc.). Fica mais fácil se você buscar naquelas estantes giratórias com livros de bolso (a edição é da L&PM Pocket). Não deve sair por mais do que R$ 20.

15 comentários:

Rafael Teixeira disse...

Ótimo livro, certa vez achei ele em pdf na internet, mas em espanhol.

Anônimo disse...

ótima indicação!

Anônimo disse...

A paixao que o futebol exerce ainda nao foi bem explicada, algo mistico, magico, algo sobrenatural. O cinema nunca em tempo algum, fez um bom filme sobre o futebol. A paixao pelos clubes, a camiseta, a bandeira, o estadio, os cantos, a tragedia e a dor da derrota, a felicidade extremada que chega matar de infarto os torcedores q tem o coracao mais fragil na hora do titulo improvavel conquistado...bah, sem palavras, o AMOR ao clube, ao futebol 'e sem igual.

Anônimo disse...

Berneschi, Você tem alguma opnião sobre o que o MP, Blogueiros, conselheiros nefastos do Palmeiras, estão tentando fazer contra a Arena Palestra ???

Anônimo disse...

Sobre o jogo de amanhã vale ressaltar e deixar em alerta o seguinte:

O jogo de amanhã é de risco, risco para a instituição Palmeiras.

As torcidas organizadas que forem ao jogo precisaram ficar alertas para algum torcedor infiltrado, tanto nos ônibus, quanto nas arquibancadas.

Não será difícil que ocorra alguma tentativa de sabotagem contra o Palmeiras e contra a torcida.
Um caso paralelo, também de violência, cairia como uma luva para desviar o foco e para arrumar “punição ao inimigo”, considerando que todo mundo cobra pela aplicação severa do código disciplinar da Conmebol, incluindo a exclusão do time da marginal.

Pode parecer imaginação, mas quando se trata dessa turma, nada é impossível.

Ontem, o Sportv fez uma matéria onde um repórter em Assunção comprou com a maior facilidade um sinalizador. Filmaram tudo e foi em Assunção.

ATENÇÃO ORGANIZADAS QUE FOREM AOI JOGO!

Anônimo disse...

Barneschi, ótimo texto!
Falando em futebol nostálgico (real) x futebol moderno (midiático), você viu uma foto da comemoraçao do gol do cristiano ronaldo, com a torcida do vulgo barça tirando fotos dele, inclusive alguns com sorrisos no rosto? Ainda tenho que escutar que isso é o maior clássico do mundo...

Anônimo disse...

"Eu não acredito em caridade, acredito em solidariedade.
Caridade é muito vertical, de cima para baixo. Solidariedade é horizontal, respeitando as outras pessoas.
Tenho muito a aprender com as utras pessoas"

Eduardo Galeano

Dimas Junior disse...

Fala, Barneschi... Tu deve saber, mas, de qualquer forma, a edição uruguaya, de 2010, cobre até o Mundial da África do Sul... Ah... Tu também deve saber, mas, existe um livro, de 2000 - edição original de 1968 - de textos sobre futebol, selecionados pelo Galeano... Chama-se "Su majestad el futbol" e é muito interessante... O prólogo é do Galeano e é sensacional... Abrazo...

César SEP disse...

O estádio do rei Fahd tem palco de mármore e ouro, mnas nenhuma memória.
SENSACIONAL

Jafé Praia disse...

Barneschi, passeando pelo seu blog, li posts sobre suas visitas aos estádios internacionais durante suas férias. São relatos bem interessantes, por isso, queria dar uma sugestão ao seu blog.
Criar uma seção (igual esta intitulada "biblioteca") que arquivasse todos esses relatos e outros que você julgar necessário, ficaria muito bom.
Parabéns pelo blog, considero uma leitura obrigatória a palmeirenses e a quem ama o futebol.

Anônimo disse...

Me caro Barneschi,
Grande recomendação. Já vi, no passado, algumas excelentes entrevistas do Galeano sobre futebol, mas esse livro ainda não li! Relativamente a futebol no cinema cito dois filmes brasileiros que considero muito bons: "Boleiros" 1 e 2, do ótimo Giorgetti! Assisti no cinema e felizmente consegui adquirir os DVDs. E não se pode esquecer das cenas/falas antológicas relacionadas ao futebol do grande filme argentino "O segredo dos seus olhos"! Maravilha!

Leonardo disse...

O livro parece ser realmente interessante, encontrei-o na bibilioteca da universidade. Esta série promete.

Leonardo Nakamura

Barneschi disse...

Obrigado a todos!

Algumas considerações:

Sobre o Palestra Italia que está por surgir
Por definição, promotores públicos são desocupados que se preocupam apenas e tão somente com interesses pessoais. O nosso estádio tem sofrido com esse tipo de intervenção antes mesmo da demolição do velho Palestra; vai ser assim até que esteja novamente de pé. Mas pode ficar tranquilo: isso não vai dar em nada. Logo voltaremos para casa.

Sobre Barcelona x Real
Confesso que não vi nada, e felizmente me livrei de ver essa cena a que você se refere. É a prova maior de que o que existe na Espanha é uma vergonha.

Dimas Junior
Não sabia dessa atualização de 2010 não, e te agradeço. Quanto ao outro livro, vou procurar.

Jafé Praia
É uma boa ideia, cara. O que eu posso fazer é agrupar todos os textos já publicados aí nessa aba lateral. Preciso apenas descolar um tempo para fazer essa pesquisa e criar o espaço. De qualquer forma, tem agora essa série dos livros e eu continuo ainda com a “Turiassu, 1840” – de maneira mais espaçada, é verdade, mas ela ainda não terminou.

Sobre “Boleiros”
Pois é, o cinema não consegue traduzir a paixão pelo futebol de maneira adequada. Via de regra, os resultados são terríveis. De qualquer forma, “Boleiros” é uma obra notável. “Boleiros 2”, por sua vez, é absolutamente decepcionante, em especial porque ingênuo.

Piriqto disse...

Esse livro está na promoção da submarino, se você comprar 3 livros, cada um sai por R$10, também tem o livro La Doce nessa promoção.

Jefferson Fernandes disse...

Li sobre esse livro e pesquisando achei esse post que meu deu muita vontade de ler o livro.

Parabéns pelo texto e por aguçar bem minha vontade.

Saudações botafoguenses aos amigos palestrinos,

Jefferson Fernandes.