12 março 2015

A geração $

100.000 sócios-torcedores, a camisa mais valiosa do Brasil, R$ 2,5 milhões de renda em qualquer joguinho. A "maior contratação da temporada", ingressos a R$ 200, novas modalidades de patrocínio. 19 reforços, ticket médio nas alturas, sorvete Diletto a R$ 10. Liderança no ranking de arrecadação, meta de chegar a 160 mil sócios, "não há gratuidade no Allianz Parque". Top 10 do mundo, porco inflável, a mentira dos 6.000 lugares "perdidos". Avanti 5 estrelas, omoplata, R$ 700 mil para jogar em casa. Mais renda que os campeonatos Carioca e Mineiro juntos, “mas o Santos só arrecadou R$ 360 mil no clássico”, ampliação da exposição dos parceiros. R$ 23 milhões para cá, naming rights para lá, neófitos falando em RGT (é patético isso...) depois de terem passado os últimos anos dizendo que ela podia fazer o que quisesse por “pagar caro pelo futebol”

Números, números, números. Há aí uma nova geração de torcedores que os adora. Mas não os entende. Vê neles um fim e não um meio. Nesse processo doentio, muito se perde.

A lógica financista que tomou conta do Palmeiras a partir de 2013 quase nos rebaixou no ano do centenário (e fomos, como bem lembrado ontem pela insignificante torcida do Santos FC, salvos por um rival); agora, ao que parece, vivemos a fase de "harvest", para usar um termo muito caro aos rentistas, especuladores e que tais.

Não há como discutir a importância do crescimento das receitas. É louvável que depois de dois anos de ostracismo e compromisso com o erro, a gestão atual tenha catapultado o faturamento do clube a um patamar nunca antes visto. Ok, que se reconheça isso.

O problema todo é que a lógica financista vem alimentando uma geração, toda ela refugiada nas redes sociais, que toma os números como finalidade e não como um meio para obter aquilo que efetivamente importa: um time à altura de nossa história, vitórias (em clássicos e contra outros grandes) e títulos.

A (parte da) torcida que aplaude renda (eu nunca vou esquecer isso, seus filhos da puta miseráveis!) parece imune à sucessão de maus resultados que o time vem experimentando em clássicos estaduais e nos confrontos contra os outros clubes grandes do país. "O time está em formação", "estamos em reconstrução", "essas derrotas no começo de campeonato são normais". Poderia parecer só conformismo, mas é o mais puro deslumbramento: não raro, a relativização é apenas o começo; os cifrões virão na sequência.

Deixá-los-ei com outros números, os que valem:

_Na gestão Nobre, o Palmeiras venceu 1 clássico em 15 disputados.

_Pior que isso: dos últimos 23 clássicos, o Palmeiras venceu 1 (este mesmo supracitado). 1 em 23! É, certamente, a pior sequência histórica já vivida por um dos grandes paulistas na somatória dos confrontos contra os outros rivais.

_Desde 2013, a partir do início da gestão Paulo Nobre, o Palmeiras se deparou 31 vezes contra outros times grandes. A campanha é vexatória: 3 vitórias (contra SPFW e Grêmio, como mandante; e Botafogo, como visitante), 9 empates e 19 derrotas. 3-9-19!

_O Palmeiras não vence o SCCP na capital paulista há longos 13 jogos.

_Retrospecto dos últimos 18 clássicos entre Palmeiras e SCCP: 1 vitória do Palmeiras, 8 empates e 9 vitórias do SCCP. A nossa vantagem histórica, que era bastante sólida, se esvaiu.

_Contra o SPFW, o Palmeiras amarga um tabu que parece infindável: são 13 anos e 21 jogos sem vitória no Jd. Leonor. Para contrastar com isso, temos o SCCP ostentando uma marca oposta contra o mesmo SPFW: 13 partidas de invencibilidade como visitante.

_Contra o Santos, o pequeno Santos contra o qual temos vantagem até dentro do amontoado de laje, conquistamos apenas uma vitória nos últimos nove duelos.

_Ante o Fluminense, notório saco de pancadas nosso em SP ou no Rio, acumulamos uma sequência impressionante: um empate e sete derrotas nos últimos oito confrontos.

_Contra o Atlético/MG, cujo histórico nos dá vantagem mesmo nos jogos no Mineirão, chegamos ao fundo do poço: sete derrotas (quase todas inapeláveis) nos últimos sete encontros.

Eu poderia aqui listar mais algumas sequências catastróficas, mas imagino que todos já tenham captado a ideia.

Para a imensa maioria dos 100.000 sócios-torcedores, pode ser que nada disso tenha muita importância. Pode ser que não se sintam assim tão incomodados com as derrotas em série, com os números de nossa história sendo solapados por atuações débeis e covardes, com um gigante virando motivo de piadas para torcidas as mais insignificantes. Logo alguém haverá de lembrar que lideramos o ranking de renda, que temos uma marca notável no aumento de sócios-torcedores, que a camisa alviverde é a “mais valiosa” do país etc.

Entretanto, a derrota tem efeitos insuportáveis - não pela derrota em si, mas pelo contexto em que ela está inserida - para os 700 torcedores que ontem estivemos no amontoado de laje da Baixada e para todos aqueles que não sucumbiram a essa inversão de valores.

Para a geração $, não deve fazer muita diferença o resultado em campo; valem os cifrões. Importante é comparar os "míseros" R$ 360 mil da renda do Santos FC aos R$ 2 milhões de bilheteria que teremos no próximo domingo. O Palmeiras perdeu mais um clássico? Ah, não tem problema; vamos aí publicar um meme no Face porque domingo é dia de fazer uma selfie no estádio novo e dar um jeitinho de aparecer no telão widescreen de alta definição – “é o maior do Brasil, sabiam?”. É meio que isso aqui: “Hoje em dia, os torcedores buscam uma experiência que vá além do futebol. Eles querem uma vivência inovadora e empolgante, mas que também traga conforto e comodidade, que seja algo agradável para todos os públicos. Por isso buscamos oferecer serviços diferenciados e com alto padrão de qualidade, atrelando entretenimento e culinária ao futebol".

É...

Enquanto os deslumbrados das redes sociais vomitam atrocidades, fomos os 700, muitos dos quais excluídos do novo estádio por uma política de preços elitista e desconectada da realidade, que representamos o Palmeiras diante de um rival que antes era batido com enorme facilidade.

Quando o alviverde vai à cancha, não tem “experiência que vá além do futebol”; tem só o futebol mesmo. Nada de “vivência inovadora e empolgante”; tem, de novo, só o futebol. Não tem “conforto”; a verdade é que mal se vê o gol a partir da laje do portão 21. Não tem “comodidade”; e nem queremos que tenha. E, claro, não há “serviços diferenciados e com alto padrão de qualidade”; trocamos tudo isso, por favor, por um time com atitude e que volte a fazer do Palmeiras o gigante que sempre foi.

“Entretenimento e culinária atrelados ao futebol”? Não, não, obrigado. Porque, no final da noite, confinados entre o campo e o portão 21 do amontoado de laje, somos nós, os 700 de sempre, que temos de aguentar uma torcida de primário (aquela das sociais) a cantar aquilo que ainda não conseguem entender aqueles que aplaudiram renda: dentro de campo, o Palmeiras virou uma piada.

Ao final de mais uma jornada fracassada, madrugada adentro, o consolo: não chovia na Baixada. Ao apagar dos refletores, restamos poucos por ali: os 700 de sempre, alguns PMs, as cabines de imprensa ainda iluminadas, a equipe de manutenção desmontando tudo no gramado. O cenário, desolador, só fez reforçar uma convicção: os números e cifrões de que se vangloriam alguns de nada valem enquanto não formos representados por um time capaz de devolver ao Palmeiras a supremacia contra seus rivais.

Finalizo, pois, com uma citação do Paulo Silva Jr.: "Não vou contar que já não me surpreendo com militante de naming rights; nem com torcedor de likes no canal do clube na internet; muito menos com quem celebra o aumento do número de parceiros da lanchonente do estádio: neste noite, aplaudiram a renda do jogo. E isso sim vai ser difícil de esquecer.

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Inspirações para este post:

Arena e o Teatro da Imposição, do Leandro Iamin
Futebol, Século II, do Paulo Júnior

16 comentários:

Luiz Fernando Sanchez disse...

concordo bastante,a única ressalva que eu faço é em relação ao sócio torcedor,acho ridículo essa porra de ficar ostentando,mas essa é uma fonte de dinheiro muito importante e ela nos deixa cada vez mais independente da famigerada erregetê

jefferson disse...

barneschi vc pensa em se candidatar a presidente do colube algum dia?? precisamos de gente como vc la dentro

Anônimo disse...
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Leonardo disse...

Triste realidade. O futebol está morrendo. Saudades do verdadeiro Palestra Itália.

Leonardo Nakamura

Barneschi disse...

Jefferson,
Não sou a pessoa certa para isso. Mas há gente de bem e preparada para assumir esta função e conduzir o Palmeiras a seu lugar.
Abraço

Rafael disse...

Leonardo,

acho que isso infelizmente já aconteceu.

vejo o mesmo comportamento acontecendo nas outras torcidas. o processo que vive a do sccp é incrivelmente semelhante a da nossa - acho que até por conta dos estádios novos inaugurados quase que simultaneamente.

daqui pra frente alguma coisa boa só virá dos focos de resistência.

* um pessoal criou uma página com uns bons textos chamada ripfutebolclube.com
e lendo algumas coisas por lá eu cheguei a conclusão deram o nome certo para o site.

Zoinho disse...

Cara concordo com tudo, mas vejo que quando um torcedor defende esses números é muito mais por falta de argumento.
Como vamos discutir com um gambá, agora ele tem libertadores, metemos então q mesmo sendo o time da globo temos mais gente e mais grana em jogos.
Os bixa, mesma coisa, toda vez é a mesma merda, perdemos pra essa raça e a única coisa que falamos é : porra calamo o estádio de vcs, vcs só vão em final, torcidinha de merda.
A um tempo atras tinha nego comemorando que a MV tinha varrido os caras, mas em campo perdiamos.

Entendeu o que quero dizer ( não escrevo tão bem como vc), esses argumentos são usados como uma defesa, já que em campo nos últimos anos tá foda.

Até Domingo,

Abraços

Zoinho

willians venancio disse...

vi todos os comentarios e respeito a todos!!! inclusive o do dono!! acho que ?? enquanto existirem torcedores que podem pagar esses ingressos caros ? parabens!! vi uma entrevista do nobre questionado por um reporter que perguntou: vc vai seguir o modelo do corinthians sobre gestao?? paulo nobre foi enfatico: vou copiar o manchester!!! em materia de midia os caras sao foda! os numeros calam a todos!!! ai todos vao falar de classicos??? desde 2000 bla bla bla?? os caras eram timeco e viraram potencia!!! porque? açoes+ torcida =$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$ craque quer jogar onde paga-se mais?? eu acho? 100.000 socios!! hj bancam esse time regular?? a meta e 160.000!!! se igualaria a rgt??? dinheiro compra sonhos!!!= craques. e o que pedimos???? ou nao?? ao dono do blog so digo uma coisa: a torcida do palmeiras e foda e sera sempre!!!! somos almas fanaticas e exigentes!!! esse time e so fantasia!!! muitos dai nao tem condiçoes de evergar nossa farda verde!! de quase 20.000.000 de almas!!vc sabe disso?? mas e o primeiro passo!! somos lideres em quase tudo! camisa! publico rendas socios torcedores!! esses efeitos??? calam midia??calam apresentadores? reporteres vagabundos e por ai!!!! dono do blog ? numeros calam numeros??? dizem os papiros? que nossa torcida parou em 16.000.000KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK tenho do de quem posta isso.pra resumir fera so te digo uma coisa??? o futebol brasileiro e enganador e ja e ha anos??????????????????kkk so quero meu clube amado com torcida besta?? se assoçiando ao avanti??quanto mais melhor!!!! isso vai fazer a diferença na hora do$$$$$ pra contratar??? e como disse alexandre mattos: o dinheiro do socio avanti e pro futebol!!! entao estou tranquilo!!!! a regra e clara!! vc nao quer pagar 200 ? ou 100?? vira soçio torcedor? essas medidas criticadas?? farao a gente no futuro virar potencia!!!! fatos reais.

César SEP disse...

Barnschi , eu cheguei a ouvir de alguns "torcedores de likes do facebook" que o palmeiras deveria empatar ou até mesmo ganhar por 1 gol de diferença contra o lixo do Vitória da Conquista para termos o jogo da volta no "Allianz". Assim, teríamos outra renda de 2 milhões. Olha o ponto que chegamos...

Abraço

Barneschi disse...

Willians,
Se você puder publicar o seu comentário em Português, eu prometo ler com atenção e avaliar como te responder.

FC disse...

Ótimo texto mais uma vez, Barneschi. Fico feliz pelo espaço que o 3VV e o Turiassu1840 dão para palmeirenses com você!!! O Palmeiras conseguiu criar o torcedor-selfie-gourmet, não importa o conteúdo, o que vale é a imagem e o sentir-se acima dos demais.... o resultado em campo já não importa mais... parece que ninguém está assistindo.

Houvesse na administração palmeirense uma única preocupação: "ser o melhor time do Brasil, sempre", o resto seria um meio para este fim.
Mas infelizmente hoje, os meios (resultados financeiros, valor da camisa, sócio-torcedores, renda de jogos, publico de jogos, etc) são vistos como fim. E o Palmeiras ser o melhor time do Brasil apenas uma questão secundária.

Abraco,
FC

Tiago Henrique disse...

Eu acho essa sua revolta de torcedor de arquibancada misturada com política!!! Aqui neste mesmo 3vv que o Senhor Rodrigo escreve sempre falou da tal roda, do ciclo virtuoso! Pois, bem se aqui sempre se falou nisso, pq essa revolta toda? Será que é difícil olhar e ver que a o ciclo virtuoso começou, não como queremos, que são títulos e grandes vitórias, mas começou e bem. Aqui sempre se falou que ter $$$ leva a ter time mais forte, que atrai torcida, ibope, patrocinadores que geram mais $$$$ e assim continua. Gostaria de entender essa sua revolta, pois me parece mais uma raiva cega de quem foi de alguma ou de várias formas prejudicado pelo atos do Sr. PN e que agora acha que temos que fazer o mundo vir abaixo por causa de 2 derrotas em clássicos, num anos em que finalmente parece, veja bem, parece que a maré começará a mudar. Acho que alguns pontos do texto realmente tem razão, mas achei exagerado e muito emocional. Tudo bem torcedor é emoção, concordo, mas usar a razão principalmente num momento de crescimento é de bom senso!!

Anônimo disse...
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Geraldo Batista disse...

Po achei um pouco de mimimi exagerado...quando vemos esses numeros ficamos felizes pq na boa mesmo, viramos pequenos pq não tinhamos dinheiro, como montar um time pra disputar e ganhar clássicos e títulos, agora realmente eu concordo que tem q mudar o preço dos ingressos, o valor mínimo não pode ser R$80 tem que ser uns R$50 no máximo...acho q a torcida entendeu o novo momento que o clube passa e temos a sensação de que o momento da retomada do grande Palmeiras está chegando, agora sim teremos um time e uma receita pra lutar por títulos, foi assim em 93 só voltamos a ganhar títulos depois da injeção de grana da parmalat e o reso da história vc conhece.
Sou de ES e não estou sempre no estádio, mas tive a oportunidade de ir no jogo contra o Capivariano e a torcida deu um show, fiquei no setor superior e todos assistindo a 90% do tempo de jogo em pé e cantando e torcendo...acho q vc e o Conrado do Verdazzo tem que parar de ficar reclamando de tudo e olhar mais pro futuro mano, temos tudo pra deixar a vergnha no passado, o time e o planejamento é bom, nunca tivemos uma média de público assim nos ultimos anos, contratações de peso, o q vcs querem mais ?????

Luan disse...

Cadeira Gol Norte (Verde) – R$ 100,00 [R$ 50,00 meia-entrada]
Cadeira Superior (Laranja/Verde) – R$ 150,00 [R$ 75,00 meia-entrada]
Cadeira Gol Sul (Branco) - R$ 200,00 [R$ 100,00 meia-entrada]
Cadeira Central Oeste (Vermelho) – R$ 300,00 [R$150,00 meia-entrada]
Cadeira Central Leste (Azul) – R$ 250,00 [R$ 125,00 meia-entrada]
Cadeira Visitante (Amarelo) – R$ 200,00 [R$ 100,00 meia-entrada]

QUE FALTA DE NOÇÃO DA REALIDADE TREMENDA, ESSE NOBRE TA MALUCO

Anônimo disse...

Essa geração que você cita neste ótimo texto caminha bem próxima da geração Winning Eleven.