27 setembro 2011

Futebol nas férias

Não esperem desta vez por relatos inspirados como os de férias anteriores, quando eu pude ver os clássicos de Roma e de La Paz, um jogo do Palmeiras em Sucre ou uma partida do Atlético de Madrid com protesto da torcida no Vicente Calderón, ou mesmo de finais de semana em Buenos Aires com maratona de cinco jogos ou com um Racing-Independiente no Cilindro. A sorte desta vez não me foi tão generosa e só o que pude ver nesta última viagem foram jogos pouco interessantes, de times ainda menos importantes. Mas, aproveitando ainda os últimos dias antes de voltar ao trabalho, vamos a eles.

Começo por dizer que a tal "data Fifa" me impediu de ver mais um jogo no Olimpico de Roma. Imaginei que um final de semana por lá seria o bastante para garantir um jogo da Roma ou da Lazio, mas não contava com os jogos das eliminatórias para a Eurocopa. A Italia enfrentou Ilhas Faroe (fora) em uma quinta e Eslovênia (em Firenze) na terça seguinte, de tal forma que o final de semana ficou órfão. E mesmo este jogo em Firenze eu não pude assistir porque estava em Napoli - cheguei à Toscana só depois.

Em sendo assim, restou o segundo final de semana na Italia para ver um jogo, mas aí a tabela é que não foi muito promissora. Estava então a caminho de Veneza e o que sobrou foi o jogo entre os dois clubes que são provavelmente os mais irrelevantes entre os 20 que disputam hoje a Série A: Chievo Verona e Novara. São dois times pequenos do Norte, que, para efeito de comparação com o nosso universo, estão no nível de, sei lá, Juventude e Ipatinga. Mas era o que estava ao meu alcance e me permitiu conhecer ao menos mais um estádio italiano, o Bentegodi de Verona (uma das sedes da Copa/1990).


Uma panorâmica do Bentegodi de Verona (acima) e o ingresso (abaixo)



Com capacidade para 40 mil torcedores, o campo é utilizado pelos dois clubes da cidade, o tradicional e popular Verona, uma espécie de Santa Cruz local, pois há tempos na terceira divisão; e o Chievo Verona, um emergente que guarda certa semelhança com aquela mentira azul do ABC. É um belo estádio, um tanto mal cuidado, mas bem ao estilo das canchas italianas: grande, com setores superior e inferior e com arquibancada distante do campo.

O jogo aconteceu às 15h de um domingo (10h aqui). Verona é uma cidade bastante turística (tem um anfiteatro romano semelhante ao Coliseu e é a terra de Romeu e Julieta), e o estádio fica na periferia. De carro, foi fácil comprar ingresso: bastou ir ao estádio naquela manhã e, sem filas, adquirir o bilhete. 18 euros (cerca de R$ 42) pela Curva Sud, o setor mais barato - havia ainda ingressos de 36 e 60 euros. Teria sido fácil comprar na hora do jogo também: foram apenas 3.500 pagantes (embora parecesse haver o dobro).

Quanto às torcidas, nada empolgante. A do Chievo Verona é composta em sua maioria por homens de meia idade. Havia também muitos idosos (algumas senhorinhas até). Ultras? Bom, havia um pequeno grupo, de 100 pessoas no máximo. O capo era um moleque de 20 e poucos anos e parecia estar naquela posição mais por falta de opção. Em se tratando de uma cidade como Verona, aquilo era o máximo de transgressão de que ele seria capaz. E ele parecia nem ter muita ascendência sobre o grupo, que se limitava a cantar músicas entoadas por todas as outras torcidas italianas, gritos de "Forza Chievo" e um outro xingamento a determinado jogador do Novara. Nem sequer havia ofensas à torcida visitante, um grupo de não mais de três centenas de pessoas, que viajou cerca de 300km da Lombardia até o Veneto.

O jogo foi bem ruim. O Chievo abriu 2 a 0, um gol em cada tempo, e, depois de ter um jogador expulso, permitiu o empate do Novara. Ao final, vaias tímidas.

Nada espetacular, mas é bom registrar que, antes de Verona, cumprindo a minha rotina de ter os estádios como ponto turístico de cada cidade (não entendo como os guias de turismo ignoram isso), dei um jeito de conhecer outros três estádios: o San Paolo de Napoli, o Artemio Franchi de Siena e o Renato Dall'Ara de Bologna. Nenhum deles estava aberto ao público ou tinha visita guiada. Em Napoli, um funcionário permitiu a entrada por um portão lateral para tirar foto. Em Siena, isso não foi possível, mas deu para ver a cancha de uma piazza um pouco acima. Em Bologna, os portões estavam abertos para o clube social e eu só tive que pular uma grade para chegar à arquibancada. Em Modena, tudo fechado.


O San Paolo de Napoli, maior estádio do Sul da Italia


O Dall'Ara de Bologna também recebeu jogos da Copa de 90


Direto da Curva Giacomo Bulgarelli

Já fora da Italia, vale registrar a visita a dois estádios bastante significativos para explicar o tal "futebol moderno". Começando por Heysel, em Bruxelas, palco de uma tragédia que deixou 39 mortos na final da Copa dos Campeões da Europa de 1985 (detalhes aqui). É inegável que tal ocorrência mudou o tratamento concedido pelas autoridades ao torcedor de futebol. Os belgas parecem querer não se lembrar disso; a única referência ao episódio é uma placa de bronze na fachada do estádio com os nomes das 39 vítimas.

O estádio Rei Baudouin (ou Koning Boudewijn Stadion) passou por uma reforma que o transformou em algo totalmente diferente do que era. Hoje pouco utilizado (o Anderlecht, maior clube do país, tem sua própria casa), é mais uma arena multiuso que propriamente um estádio de futebol. Fica na periferia de Bruxelas e, a exemplo de quase todos os campos de grandes cidades europeias - Roma e Barcelona são exceções -, tem uma estação de Metrô ao lado.


A imponente fachada de Heysel (acima) e a placa com os nomes de todos os mortos na tragédia que mudou a história do futebol no mundo (abaixo)



Mudando de país, outra cancha importante, também com Metrô ao lado: Amsterdam ArenA, casa do Ajax. Quem está na faixa dos 30 anos certamente vai se lembrar do estardalhaço da nossa imprensa esportiva por ocasião da inauguração desta arena, em 1996, tida então como a mais moderna do mundo. Era uma prévia do "padrão Fifa" que hoje assola os estádios do mundo.

A visita guiada (12 euros - ou grátis para quem tem o Amsterdam Card) é semelhante à de outros campos europeus: gramado, sala de imprensa, arquibancada, história do estádio, o escambau. Faltaram só a desnecessária passagem pelos vestiários e a visita ao museu, que, para meu azar, passava por reformas e seria reaberto três dias depois. Ficou pendente.

Sobre o estádio: é belíssimo e tem a vantagem de cadeiras retráteis, não atrapalhando, portanto, quem deseja ver o jogo em pé. Chama atenção pelo grau de inclinação do setor superior (muito parecido com o do Santiago Bernabeu), permitindo uma visão privilegiada de qualquer lugar, e pela solução inteligente para os telões, visíveis para a totalidade do público e sem atrapalhar ninguém. Merece destaque também a cobertura que abre e fecha de acordo com a necessidade.

Mais um ponto importante: o Ajax oferece para seus torcedores o ArenA Card, um cartão pré-pago que permite ao torcedor comprar alimentos e bebidas sem a necessidade de usar dinheiro.


Amsterdam ArenA, a casa do Ajax



Para finalizar este já longo post, o segundo jogo da viagem: Paris Saint Germain x Salzburgo pela Liga Europa, a Copa Sul-Americana de lá. Eu bem sei que os clubes envolvidos não são lá grandes atrativos, mas a França não apresenta nada muito melhor - a não ser em Marseille, bem longe de Paris.

Sei também que a imagem do PSG é sempre associada a um certo ex-jogador bambi, mas digo a vocês que a coisa pode piorar. Já no estádio, ao ver a escalação do time da casa, descobri que ele tem duas figuras bem conhecidas: o camisa 15 é um zagueiro uruguaio ídolo dos bichas (e, a julgar pelas reações no estádio, do público local também) e o camisa 10 é um certo Nenê - aquele mesmo.

Mas é preciso começar pelo começo. Cheguei a Paris em uma terça-feira e o jogo era na quinta. Não me animei muito, mas era a única opção. Comprei ingresso pela internet, no site do PSG. Foi só fazer um rápido cadastro e usar o cartão de crédito. O ingresso mais barato, a 25 euros, era de um setor central - as curvas não estavam disponíveis. Preferi garantir assim mesmo e retirei o ingresso na Fnac - poderia ser em qualquer uma das muitas lojas da rede em Paris.

Para chegar ao estádio, Metrô - como tudo mais. Muitos torcedores indo para lá, e então é o caso de dizer que a torcida do PSG é um retrato da população local: franceses típicos (pensem naquele arquétipo entojado) misturados a imigrantes árabes e africanos.

Apesar do nome (Parque dos Princípes é pior que Brinco de Ouro da Princesa) e de toda aquela inevitável cara de Europa, o estádio é bem agradável. Meu lugar era central, em um setor superior, com visão privilegiada de toda a arquibancada. Era preciso seguir toda aquela pataquada de lugares numerados, e o povo realmente leva o negócio a sério. Tem até monitora para indicar o lugar aos menos habituados - e eu vi um nego dando gorjeta para a moça.

Com capacidade para 45 mil torcedores, o estádio recebeu pouco mais de 23 mil. Era a primeira rodada da competição europeia, e o adversário não era nada empolgante - o austríaco Salzburgo é mais conhecido por ter sido comprado pela Red Bull, que estuprou o símbolo do time com a inserção da sua logomarca. Uma aberração.

Havia não mais do que 200 visitantes, em um canto próximo aos "ultras" do PSG. Coloco entre aspas porque não pareciam ser ultras. Era uma torcida bem fraca, com uma única música, repetida à exaustão. E uma única faixa, no setor superior, os apresentava: Paris Saint-Germain.

O time da casa tem um ataque muito forte. O argentino Pastore fez o que quis com os zagueiros austríacos. Havia ainda mais um bom atacante e o tal de Nenê - que está jogando muito. O mesmo se aplica ao tal zagueiro, que ganhou todas de cabeça. O placar, 3-1, não reflete o que foi o jogo. O PSG poderia ter enfiado seis ou sete gols, mas pecou pelo preciosismo. Perdeu gol atrás de gol, ficou só no 3 a 0 e, em uma falha do lateral-direito, tomou um gol.

Panorâmica do Parc des Princes


A vista do lado de fora, já depois do jogo


Parece ser um ingresso de qualquer coisa, menos de um jogo de futebol

Ao final de tudo, o balanço é razoável. Não tive o jogo de Roma, dei azar em outros lugares e, além de visitas a campos importantes, fico com o saldo de mais dois novos estádios para o currículo. Não deixa de ser alguma coisa. Que venham as próximas férias!

26 setembro 2011

Vexame anunciado



Era tão previsível... tanto que eu sequer consegui esboçar reação no gol de empate do CAG, nas tantas chances absurdas desperdiçadas pelo time ou mesmo ao final de mais um trágico capítulo da cada vez mais conspurcada história da SE Palmeiras. Foi como se eu soubesse que aquilo iria acontecer, de tão improvável que parecia. Porque se estava tudo sob controle com um homem a mais, a expulsão do segundo jogador do adversário foi a senha para que o Palmeiras se esmerasse ainda mais um pouco na arte das derrotas impossíveis, absurdas e inadmissíveis.

Depois do jogo, vagando pelas ruas de mais uma cidade a testemunhar o ocaso de um gigante, recebi incontáveis mensagens e ligações de palestrinos indignados. Uma delas trazia o seguinte enunciado: "A SE Palmeiras morreu hoje". Eu diria que a frase é até condescendente, uma vez que essa morte já vem se arrastando há longos anos. As causas? Eu já não sei enumerar todas. O que mais deve preocupar são as consequências.

Logo após a segunda expulsão, o gramado do Serra Dourada foi invadido pelos fantasmas de todas as humilhações das últimas décadas. Entraram em campo o CAG de tempos idos, o Goiás, o São Caetano, o Santo André, o Ipatinga, o Paulista, o ASA, o Vitória, o Ixpót, o Coritiba, essas pragas todas que já nos fizeram passar tanta vergonha em tão pouco tempo. E então o empate do CAG parecia mesmo inevitável, porque em campo estavam 11 vagabundos que representam bem cada uma de todos os nossos fracassos recentes - e cabe observar que a maior parte deles protagonizou a mais absurda de todas as derrotas, dez meses atrás.

Eu já esperava pelo gol de empate; não consegui nem lamentar naquele momento, porque ele pareceu tão natural a uma instituição que se autoflagela em praça pública.

O Palmeiras não precisa de adversário; o Palmeiras se encarrega ele próprio da sua destruição. E assim, ano após ano e humilhação atrás de humilhação, o clube se apequena, uma história gloriosa é arranhada, tabus são destroçados um atrás do outro e o sofrimento só faz aumentar. Sim, parece mesmo que o Palmeiras morreu.

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_Parabéns ao camisa 30 por completar mais de um turno sem marcar sequer um gol. E o vagabundo sequer se dignou a voltar para o hotel com o restante do elenco.

_Gostaria de saber o que estaria fazendo o camisa 10 ontem à noite.

_Depois do jogo, no hotel do Palmeiras, eu e poucos amigos fizemos a necessária pressão sobre os vagabundos. Alguns não gostaram e revidaram. Pareciam não entender o vexame que tinham acabado de cometer.

_Felipão chegou ao hotel e foi um dos primeiros a descer do ônibus. Estava nitidamente inconformado. Mais nervoso e irritado do que necessariamente triste. Um grupo de sete ou oito adolescentes (na casa dos 11, 12 anos) queria tirar fotos com os jogadores. Felipão soltou um "Não é possível que vocês estejam aqui para receber esse time". Um dos jovens respondeu: "Mas é que nós torcemos pro Palmeiras". Ao que Felipão retrucou: "Ah, isso não existe...". E seguiu em frente sem olhar para trás.

_Havia ontem no estádio Serra Dourada tanta gente de verde quanto havia do time da casa. Só não sei até quando esse povo todo continua querendo vestir verde. Porque nem todos são como nós...

_A bandeira da Mancha Brasília, que incoerentemente abre o post, foi o que de melhor aconteceu ontem em Goiânia.

23 setembro 2011

O retorno

De volta. Finalmente. Deixei o Brasil depois de buscar a vitória sobre os gambás em Prudente/MS - já faz tempo, eu sei - e esperava por uma boa fase, algo já muito distante da nossa realidade. Que nada; acompanhei as notícias à distância com enorme desgosto, vendo as coisas piorarem a cada dia. Cada SMS era recebido com um temor que logo se confirmava. Foram cinco jogos, três míseros pontos conquistados, a perda da invencibilidade em casa, Felipão sendo xingado por parte da torcida e todo este cenário caótico que os senhores acompanharam melhor do que eu.

Voltei direto do aeroporto para o Canindé, com o fuso horário na cabeça, já esperando pelo cenário que encontrei: estádio vazio, a organizada sem faixa e bateria, público dividido, uma tensão que invevitavelmente transborda da arquibancada para o gramado. Isso posto, a vitória por 1 a 0 com gol contra era o que poderia acontecer de melhor para tirar um pouco do peso sobre time e torcida. É pouco para os objetivos que deveríamos ter, mas nem é o caso de esperar por algo além de mais um fim de temporada modorrento e arrastado.

O melhor de tudo foi reencontrar os amigos, reviver o clima da arquibancada e compensar um pouco dos dois jogos que tive de perder em nome da minha sanidade mental. O ponto bastante negativo foi perceber que a animosidade entre a organizada e o resto da torcida ficou ainda mais intensa. É um clima preocupante já, em especial nos jogos disputados no Canindé e ali naquela baixada atrás do banco de reservas.

Aliás, começou ontem uma sequência de 14 jogos onde eu devo marcar presença em 13 (os sete em casa, mais Atlético/GO, Santos, Flamengo, Bahia, Grêmio e SCCP fora).

Tem Serra Dourada no domingo!

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_É preciso perguntar: e o camisa 10?

_Todos os relatos que eu ouvi antes do jogo davam conta de que o Palmeiras nem teria jogado assim tão mal em boa parte dos últimos jogos. E, a julgar pelos gols absurdos que não aconteceram ontem, fica fácil entender o que aconteceu contra Cruzeiro e Inter.

_Obrigado a todas as mensagens recebidas aqui no blog, no Twitter e por email durante as férias.

_Um post sobre o que existiu de futebol durante a longa viagem de férias fica para os próximos dias. Este foi só pra marcar o retorno.