29 março 2010

Pobre Maracanã

A Copa-2014 vai fazer muitas vítimas no futebol brasileiro nos próximos quatro anos. Nenhuma será tão significativa quanto o Maracanã, o palco maior do esporte mundial. Tem a ver com a sua importância no cenário todo, mas especialmente com o que será feito dele. O que vem pela frente, custa acreditar, é ainda pior do que tudo o que já foi feito. E, convenhamos, em troca de muito pouco, quase nada.

Perdi as contas de quantas foram as reformas sofridas pelo Maracanã nas últimas duas décadas. Enfiaram cadeiras, fatiaram a arquibancada, criaram novos setores, rebaixaram o gramado, acabaram com a geral, promoveram adequações, evocaram o conforto, pediram para o torcedor ficar sentado, detonaram a estrutura, reduziram a capacidade, proibiram a cerveja, tiraram muito do prazer de se ver um jogo no velho Mario Filho.

Mesmo depois de tantas agressões travestidas de melhorias, a alma do Maracanã permanece viva. Acontece que seus inimigos, entre os quais aquele retardado que aventou a sua demolição, continuam a evocar o tal Padrão Fifa para impor novas mudanças. Não, eu não vou abordar aqui os milhões que serão gastos do dinheiro do povo. É um debate importante, mas para outros fóruns. Aqui se discute a alma do futebol, e é isso que corre risco quando falamos em Copa do Mundo no Brasil.

Escrevo isso tudo porque, vejam os senhores, tivemos o anúncio na semana passada de que o Maracanã deve (ou pode?) abrigar um único jogo da Copa de 2014. Seria a grande final, cabe dizer, mas não deixa de ser um único jogo. Teremos então mais um investimento na casa das centenas de milhões e uma reforma que o detonará por completo para que sejam disputados apenas 90 minutos de futebol.

Vejam a matéria da FSP de 26.03.2010:
Por final, Rio despreza o resto da Copa

Em linhas gerais, eis o que interessa: segundo Ruy César, secretário municipal para a Copa-2014 e para a Olimpíada-2016 (criaram esse cargo mesmo?), o Maracanã vai sediar um único jogo do Mundial, justo a final.

Depois disso, na edição de sábado do mesmo jornal, tivemos o desmentido do prefeito Eduardo Paes, que quer mais jogos no Rio. Pouco importa, no entanto. Afinal, se tivermos não apenas um, mas, digamos, cinco, seis ou sete jogos, nada muda. O que acontece é que a alma do Maracanã e a cultura do torcedor brasileiro serão sacrificados para uma disputa que dura apenas um mês.

Já foram tantas as reformas, tanto tempo de interdição, tanto dinheiro gasto, tantas mudanças estruturais, e agora vem mais uma pela frente. Centenas de milhões sendo investidos à toa, mais agressões contra a alma do Maracanã, mais um atentado contra cultura do futebol e do torcedor brasileiro.

Não vão deixar o Maraca em paz.

Parabéns, Brazil! Viva a submissão ao Padrão Fifa!

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"Febre de bola", página 118:

"O futebol pelo rádio é o futebol reduzido ao mínimo denominador comum. Sem os prazeres estéticos do jogo, sem o reconforto de uma multidão que sente as mesmas coisas que você, sem a sensação de segurança que se tem ao ver que os zagueiros e o goleiro estão mais ou menos onde deveriam estar, a única coisa que sobra é medo puro.

As duas últimas daquelas quatro partidas semifinais contra o Liverpool quase me mataram. Na terceira o Arsenal abriu o placar no primeiro minuto e ficou se segurando durante os outros 89; passei todo o segundo tempo sentando, levantando, fumando e andando, incapaz de ler, falar ou pensar, até que o Liverpool empatou já nos descontos. O gol de empate foi como o tiro de uma arma que estivesse apontada para a minha cabeça havia uma hora, com a diferença nauseante de não acabar com tudo como uma bala teria feito - pelo contrário, forçando-me a passar por tudo aquilo novamente."

28 março 2010

Desesperança

"Acabou a paciência do palmeirense": assim o Estadão definiu o empate alviverde de ontem. É preciso uma dose bem razoável de boa vontade para abrir o texto com tal afirmação. Porque a verdade mesmo é que não existe mais qualquer sinal de paciência no Palestra Itália, e isso já há alguns anos. O que acontece agora é reflexo de um clube fragmentado, mergulhado em suas disputas políticas internas. PVC, na FSP de ontem, definiu bem o que se passa nas alamedas do mais vitorioso clube do futebol brasileiro: "Gente que ama o Palmeiras acima de quase tudo. Menos do ódio que nutrem uns pelos outros." E aí, meus caros, chegamos ao momento atual, em que tudo é desesperança. Paciência? Isso já pertence a um passado bem distante. O que temos agora é terra arrasada: ninguém mais confia em ninguém, ninguém mais entende o que se passa e ninguém consegue explicar nada. Desesperança.

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Sobre direitos adquiridos

Jogo contra o Mirassol, time precocemente eliminado, ameaça de chuva na zona oeste, ingresso a R$ 30. O que leva alguém a ir ao estádio numa situação dessas?

Eis então que tivemos 3.746 pagantes. Gente demais, em especial se considerarmos que a Mancha não entrou. Por que tanta gente?

Com os senhores, Nick Hornby de novo:

"... havia menos de 20 mil pessoas no estádio, e a maioria dos que se encontravam lá havia ido apenas para registrar sua reprovação a tudo o que ocorrera. (Eu pertencia à outra categoria: aqueles que estavam lá porque sempre estavam lá.)"

Era o meu caso e o de muitos outros amigos também. Fomos ao Palestra porque, em essência, não precisamos de motivos para estar lá. Conheço algumas dezenas de pessoas assim; talvez centenas. Dá pra ver no rosto. Gente que está lá simplesmente porque está sempre lá. Gente que, como eu, já faz parte do cenário todo.

Em sendo assim, aproveito o momento para deixar aqui o link para um post de 2008 que parece fazer sentido agora. Sem ofensas a ninguém, ok? A questão é: qualquer um tem direito de escolher os jogos que deseja ver. Qualquer um pode ficar a temporada inteira no sofá e depois correr atrás de um ingresso para a final. Mas o tipo de torcedor que se dispõe a ver um desinteressante Palmeiras 1 x 1 Mirassol tem uma espécie de direito adquirido para quando a coisa vale realmente. É a minha opinião.

E aí, caros idealizados do tal Avanti, eis o que os senhores deveriam levar em conta na hora de pensar em um programa de fidelidade com o torcedor: CARNÊ DE INGRESSOS

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"Febre de bola", páginas 76 e 77:

"Os grandes clubes parecem ter se cansado das suas torcidas, e sob certo aspecto quem pode culpá-los? Jovens trabalhadores e homens de classe média baixa trazem consigo problemas complicados e ocasionalmente perturbadores; os diretores e presidentes podem argumentar que eles tiveram sua chance e a desperdiçaram, e que as famílias de classe média - o novo público-alvo - não só irão se comportar bem, como pagar muito mais para fazê-lo.
Esse argumento ignora questões básicas que envolvem responsabilidade, justiça e o papel que os clubes têm ou não a representar nas suas comunidades. Mas mesmo sem essas questões, parece-me haver uma falha fatal nesse raciocínio. O prazer que um estádio de futebol pode proporcionar é, em parte, uma mistura do vicário com o parasítico, porque a não ser que a pessoa poste-se no Lado Norte, no Kop ou na Ponta Stretford, fica dependendo dos outros para que a atmosfera seja criada; e a atmosfera é um dos ingredientes cruciais da experiência futebolística. Essas torcidas imensas são tão vitais para os clubes quanto os jogadores, não só porque seus membros são eloquentes no seu apoio, não só porque fornecem aos clubes grandes somas de dinheiro (embora esses fatores não deixem de ser importantes), mas porque sem as torcidas ninguém se daria ao trabalho de ir ao jogo.
O Arsenal, o Manchester United e todo o resto têm a impressão de que as pessoas pagam para ver Paul Merson e Ryan Giggs, e é claro que elas fazem isso. Mas muita gente - o pessoal das cadeiras que custam vinte libras, e os caras dos camarotes-executivos - também paga para ver a torcida que foi lá ver Paul Merson (ou para escutar a torcida gritar com ele). Quem iria comprar um camarote-executivo se o estádio estivesse cheio de executivos? O clube vendia os camarotes incluindo a atmosfera de graça, de modo que o Lado Norte gerava tanta renda quanto qualquer um dos jogadores. Mas quem irá fazer o barulho agora? Será que a garatoda suburbana de classe média ainda virá com suas mamães e papais se o barulho tiver de ser feito por eles mesmos? Ou será que se sentirão tapeados? Porque a realidade é que os clubes estão lhes vendendo ingressos para um espetáculo no qual a atração principal foi afastada para dar lugar a eles.
Mais uma coisa sobre o tipo de plateia que o futebol resolveu atrair: os clubes vão ter de garantir a qualidade, garantir que não haverá anos de vacas magras, porque o novo público não tolerará fracassos. Essas pessoas não são do tipo que irá ver o time jogar contra o Wimbledon em março, estando em décimo primeiro lugar na Primeira Divisão e fora de todas as disputas de títulos. Por que deveriam ir? Elas têm muitas outras coisas para fazer. Portanto, Arsenal... nada de escritas perdedoras de 17 anos de duração, feito aquela entre 1953 e 1970, certo? Nada de ficar flertando com o rebaixamento, feito em 1975 e 1976, nem nada de meia década sem sequer chegar a uma final, feito a que nós tivemos entre 1981 e 1987. Nós, fregueses de caderno, aturamos tudo isso, e pelo menos 20 mil de nós aparecíamos lá por pior que o time jogasse (e às vezes jogava muito, muito mal mesmo); mas essa turma nova... não tenho tanta certeza assim."

25 março 2010

Os mentirosos

Marco Polo Del Nero, o presidente da FPF, tem se portado como capacho da família Marinho. A escolha é legítima; qualquer imbecil tem o direito de se expor ao ridículo ou de se submeter aos interesses escusos de quem quer que seja. No caso específico da discussão sobre a lei que proíbe jogos de futebol na madrugada, FPF e Globo se associaram para defender o indefensável. De novo: é legítimo o direito à defesa. O que não se pode aceitar é que, na ausência de argumentos pertinentes, Del Nero e Marcelo Campos Pinto, diretor executivo da Globo Esportes, passem a manipular números e informações para criar uma mentira. A verdade é uma só: Del Nero e Campos Pinto são mentirosos.

Há uma semana, este blog questionou o silêncio e a omissão pública da emissora câncer. Desde então, tivemos algumas manifestações formais, e elas todas revelam desespero, despreparo e, o pior, desonestidade. É necessário então desmontar as mentiras da dupla Del Nero/Campos Pinto. Para tanto, vamos nos ater a duas matérias, publicadas por Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo.

Ao desmonte:

1. Folha de S.Paulo, 18 de março de 2010:
Outro Canal - Ilustrada

Pesquisa diz que torcedor quer jogo às 21h40

Pesquisa da Federação Paulista de Futebol mostra que as partidas das 21h40 (transmitidos às 21h50 pela Globo) são as que mais enchem os estádios.
Até a 14ª rodada do Paulistão 2010, as competições desse horário representaram só 10% do total de 140 jogos, mas foram as mais cheias entre as realizadas em meio de semana: reuniram 7.573 torcedores em média, contra 2.897 das partidas ocorridas em outras faixas.
A preferência, no entanto, é previsível. Esses jogos põem em campo os times melhores emais competitivos - e as torcidas mais numerosas.
Esse horário -e a respectiva transmissão pela TV- terá que mudar caso seja sancionado pelo prefeito, Gilberto Kassab, um projeto de lei, aprovado pela Câmara, que proíbe a continuidade de jogos após as 23h15.
A transmissão de partidas das 21h40 é a principal fonte de receita dos clubes. No Paulistão, por exemplo, o contrato de R$ 70 milhões com a Globo representa dois terços da arrecadação total do campeonato. A coluna apurou que a Globo entende como "descabido" o projeto. Tem estatísticas que confirmam a preferência do torcedor pelo evento às 21h40, mesmo com uma opção às 21h.
Uma das justificativas que sustentaram a aprovação do projeto de lei foi a dificuldade de transporte para o torcedor retornar à casa após o jogo. "Por que não manter o Metrô aberto por mais meia hora?", sugere Marco Polo Del Nero, presidente da federação.


Parece até coisa comprada, mas eu acredito mais em despreparo da colunista, dado que o título não reflete o conteúdo. Aliás, cumpre dizer que a nota acima foi publicada não no caderno Esporte, mas na Ilustrada, que atinge o público que interessa à emissora câncer. Em vez de notícias sobre novelas idiotas e reality shows imbecilizantes, eis que temos um texto em defesa dos interesses globais.

Logo de cara, somos informados de que existiria uma pesquisa dando da conta da preferência do torcedor por este horário obsceno. A mentira já reside no horário apresentado (21h40), quando o correto é 21h50 ou até 22h. E aí, de imediato, fica a pergunta: que cazzo de pesquisa é essa? Logo descobrimos que não se trata de pesquisa, mas sim de um levantamento de públicos do campeonato. São, como se sabe, coisas bem diferentes.

Leiam a nota com atenção. Me digam, por favor, se alguns trechos não parecem escritos por algum interessado no assunto? Há frases aqui e ali que mais parecem terem vindo de algum release da assessoria de imprensa da FPF ou da Globo. O texto é até bem construído, mas nada se sustenta. A nota desmorona.

É evidente, canalhas mentirosos, que as partidas disputadas às 21h50 terão média de público superior. Afinal, para atender aos interesses da TV, tais jogos reúnem os times grandes e têm maior apelo popular. O torcedor, portanto, é obrigado a ver os jogos nesse horário; isso é bem diferente de "preferir". Não existe relação de causa, mas de adversidade. O torcedor vai aos jogos APESAR do horário obsceno. O que resta para os horários convencionais (antes 20h30 e agora 21h) são as partidas disputadas por times pequenos, muitos deles sem casa e quase todos sem torcida. A média, é lógico, tende a despencar.

Para finalizar, Del Nero faz o papel do idiota do Globo Esporte e tenta desviar a responsabilidade para o poder público. Que papelão. Como pode este filho da puta envergonhar tanto o nome de seu pai?


2. O Estado de S.Paulo, 24 de março de 2010

FPF e Globo vão à Câmara para barrar lei

Em audiência na Câmara Municipal marcada às pressas para discutir um projeto já votado em segunda e definitiva discussão, a Globo Esportes e a Federação Paulista de Futebol (FPF) pressionaram ontem os vereadores pela alteração da proposta que impede a realização de jogos de futebol na capital paulista depois das 23h15. Marcelo de Campos Pinto, diretor executivo da Globo, chegou a dizer em plenário que clubes como Corinthians e São Paulo passariam a mandar seus jogos fora da cidade por causa da regra, o que seria pior para seus torcedores do que as partidas com final perto da meia-noite. O presidente da FPF, Marco Polo Del Nero, fez ameaça maior. Declarou que os clubes paulistas podem ser impedidos pela Conmebol de participar da Taça Libertadores a partir de 2011, por descumprimento dos acordos de transmissão de TV no País.
O texto que obriga os jogos a começarem no máximo às 21h15 foi aprovado há duas semanas por 43 dos 55 vereadores e aguarda sanção ou veto do prefeito Gilberto Kassab (DEM), que ainda não manifestou sua posição. Se o prefeito não vetar a proposta nos próximos oito dias, a Câmara pode promulgar o projeto e a regra, dessa forma, entra em vigor. Nos últimos dias, porém, executivos da Globo e dirigentes da FPF têm pressionado tanto o Executivo como a Câmara pela alteração do texto. As audiências no Legislativo são marcadas sempre antes das votações dos projetos. Mas, após pedido feito por Del Nero ao presidente da Câmara, Antonio Carlos Rodrigues (PR), uma reunião aberta foi marcada para que fossem apresentados os argumentos dos dirigentes e executivos contrários à mudança. Durante quase quatro horas, houve embate entre os representantes da Globo e da FPF com os vereadores.
Segundo o diretor executivo da Globo Esportes, os jogos realizados às 21h45 nos dias de semana registraram em 2009 média de público de 23.787 pagantes, superior à dos jogos realizados às 21horas, de 17.911. "A plasticidade dos estádios cheios também nos interessa, dá credibilidade à TV, que representa o estádio infinito. Por isso há uma imperiosa necessidade de que sejam mantidos os jogos às 21h45", argumentou o diretor. Marco Polo Del Nero disse que, caso os clubes desrespeitem as regras de transmissão, não poderão participar da Libertadores no ano que vem.
O tom de ameaça do executivo e do dirigente causou mal-estar e momentos de tensão no plenário. "Na base do tapetão, estão tentando uma prorrogação que não existe. O projeto já foi votado, está nas mãos do prefeito", bradou o vereador Adilson Amadeu (PTB). Apesar da pressão, o Legislativo descartou por enquanto elaborar novo projeto. Presente na audiência, o secretário municipal de Esportes, Walter Feldmann, disse que Kassab ainda não decidiu se vai vetar a iniciativa da Câmara.


Vê-se que, depois de todo o silêncio, Globo e FPF, em conluio, resolveram pressionar os vereadores para mudar a lei - já aprovada duas vezes. O mais interessante dessa matéria do Estadão (muito boa, por sinal) é notar toda a falta de escrúpulos do diretor da Globo Esportes e de seu capacho. Sem argumentos, eles partem para o confronto mesmo, para um jogo de poder financeiro que demonstra o nível dos envolvidos. Vale destacar alguns pontos que nem podem ser chamados de argumentos:

A ameaça: "Marcelo de Campos Pinto, diretor executivo da Globo, chegou a dizer em plenário que clubes como Corinthians e São Paulo passariam a mandar seus jogos fora da cidade por causa da regra, o que seria pior para seus torcedores do que as partidas com final perto da meia-noite."
Dispensa comentários, não? É quase como se ele dissesse para aceitarmos a merda como está; em caso de contestação (ou de uma lei, como no caso agora), tudo pode piorar.

A bravata: "O presidente da FPF, Marco Polo Del Nero, fez ameaça maior. Declarou que os clubes paulistas podem ser impedidos pela Conmebol de participar da Taça Libertadores a partir de 2011, por descumprimento dos acordos de transmissão de TV no País."
O capacho só pode estar de brincadeira. Será que ele pensa que alguém vai acreditar nessa pataquada? Será que ele pensa que todo mundo é idiota?

Na sequência, o diretor da Globo Esportes se utiliza da mesma arma suja de Del Nero e manipula os números da temporada passada. E é claro que os jogos das 21h50 teriam uma média de público maior: tem Libertadores, Copa do Brasil, clássicos do Brasileirão etc. Os jogos realizados às 21h50 são aqueles que atraem maior público. APESAR do horário, é bom frisar. As médias são facilmente infladas e fica muito fácil exibir qualquer tipo de número favorável. Vale aqui o que já foi observado anteriormente: isso não é preferência; o que acontece é que, devido à importância dos jogos, o torcedor é obrigado a enfrentar os jogos de madrugada. Se os duelos acontecessem às 20h30, a média seria ainda maior.

E aí, para fechar com destaque, eis aqui mais uma declaração estapafúrdia do dirigente global: "A plasticidade dos estádios cheios também nos interessa, dá credibilidade à TV, que representa o estádio infinito. Por isso há uma imperiosa necessidade de que sejam mantidos os jogos às 21h45"
Dá pra acreditar nisso?

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A nota da FSP fala em "pesquisa", certo? Pois bem, a verdade é que nunca se fez uma pesquisa para identificar a preferência do torcedor (sobre assunto nenhum, menos ainda sobre este do horário). Em sendo assim, este blog, muito humildemente, tomou a liberdade de fazer no post anterior a seguinte pergunta: "Torcedor, você prefere o futebol às 21h50? Sim ou não?"

O torcedor, claro, deu a sua opinião. Em um dia, foram 61 votos. Desses, 60 responderam não, quase sempre com uma contundência semelhante à que é vista neste blog. O único internauta que não fez essa opção claramente deixou um voto enigmático: não chegou a ser um sim; foi um "eu não me importo". É bem diferente. No entanto, com enorme boa vontade e para não humilhar demais os senhores Del Nero e Campos Pinto, considerei como sendo um sim.

Ao final, eis o resultado da PESQUISA:
SIM: 1
NÃO: 60

E aí: alguém da mídia, além da Jovem Pan, vai tomar partido na história? Alguém vai se preocupar com o torcedor? Este blog faz a sua parte; pena que não parece ser o suficiente.

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"Febre de bola", páginas 55 e depois 57 e 58:

"Aquela tarde em Derby foi pior do que a maioria. Houve confusão antes e durante o jogo, a intervalos esporádicos, e embora eu estivesse na parte baixa da arquibancada, escondido no meio da criançada que fora com os pais, tive medo - tanto medo que na realidade fiquei dividido quanto a uma vitória do Arsenal. Um empate já estaria de bom tamanho, mas daria até para aguentar uma derrota e a eliminação da Taça, se isso significasse voltar à estação de Derby sem que nada de desagradável acontecesse com a minha cabeça. É em momentos assim que os jogadores têm mais responsabilidade do que pressentem ou percebem; em todo caso, esse tipo de percepção não era das qualidades mais óbvias em Charlie George."

(...)

"Foi culpa de Charlie. Um gol - por razões que exigiriam um livro inteiro só para serem explicadas - é um gesto de provocação, principalmente quando as arquibancadas já estão banhadas numa espécie de meia-luz de violência como estavam naquela tarde. Eu sabia que Charlie era um profissional, e que se a oportunidade de marcar se apresentasse ele não deveria levar em consideração a nossa segurança. Até aí tudo bem. Mas era absolutamente essencial comemorar correndo para os torcedores do Derby, uns skinheads que rosnavam, nos xingavam de bichas sulistas, debochavam de nosso sotaque cockney e usavam biqueiras de aço nas botas? Era na companhia deles que teríamos de passar o resto da tarde, e pelo território hostil e cheio de vielas deles que teríamos de escafeder-nos depois do apito final! Era mesmo essencial comemorar fazendo com os dedos um sinal nada ambíguo, de vão-tomar-dentro-seus-putos-provincianos? Bom, isso já era bem mais discutível. Na minha opinião, Charlie perdeu momentaneamente todo o senso de dever e responsabilidade.Ele foi expulso debaixo de vaia e multado pela Liga; nós fomos perseguidos até o trem debaixo de uma chuva de latas e garrafas. Um brinde, Charlie."

24 março 2010

Torcedor, o que você quer?

Globo e FPF propagandeiam uma mentira que em breve será desmontada por este blog. Fizeram pressão sobre os vereadores, lançaram ameaças e bravatas, se perderam na falta de argumentos. A tal audiência na Câmara trasncorreu sem a presença do maior interessado, o torcedor. E este blog pode não ter uma audiência monstruosa, mas tem um público bem consolidado, composto basicamente por torcedores de estádio. Existe certa representatividade, mesmo porque nenhuma outra pesquisa deu conta de responder à simples pergunta que será feita aqui. Peço a colaboração de cada um de vocês para que eu possa construir o próximo post. A pergunta, caro torcedor, é bem simples:

Globo e FPF manipulam os números para alardear a suposta preferência do torcedor pelos jogos às 21h50 durante a semana.

Você prefere esse horário? Sim ou não?

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"Febre de bola", página 24:

"Naqueles estágios iniciais minha relação com o Arsenal era de natureza estritamente pessoal: o time só existia quando eu estava no estádio (não me recordo de ter ficado excepcionalmente acabrunhado pelos resultados ruins fora de casa). No que me dizia respeito, se o time ganhasse os jogos que eu via por 5 a 0 e perdesse o resto por 10 a 0 a temporada seria boa."

23 março 2010

Messi, Romário e Marcelinho

A necessidade de criar manchetes de impacto para vender jornal (ou coisas do tipo) faz com que a imprensa esportiva construa comparações por vezes absurdas, tal como esta entre Messi e Maradona. É assim no mundo todo. Por aqui, a Folha de S.Paulo trouxe hoje uma matéria nada equilibrada em que Messi é apontado por um fulano qualquer como "o maior jogador da história". Não cabe entrar na discussão; seria uma ofensa a Diego Maradona. Mas o texto despertou dentro de mim um antigo debate: quem é o melhor jogador da (minha) história?

Não preciso pensar na resposta, pois ela é bem evidente. Mas cabe fazer aqui uma breve divagação para tornar o texto mais interessante e prender a atenção de vocês. Vejamos:

O melhor jogador que eu vi jogar não é Messi. Tampouco Ronaldinho, Zidane, C. Ronaldo ou qualquer desses que acrescentam ao seu talento dentro de campo doses elevadas de marketing. Também não foi Maradona, este sim um gênio mesmo com o marketing às avessas. Não poderia ser nenhum deles, porque eu nunca os vi no estádio. E, sendo coerente com o meu raciocínio, o futebol só existe quando visto a partir da arquibancada.

Poderíamos então falar de Ronaldo. Acontece que o Ronaldo que veio para os gambás, embora ainda genial, não é nem sombra do Ronaldo que conquistou o mundo tantas vezes. E eu o vi em campo poucas vezes, sempre nos clássicos com o rival.

Dirão alguns leitores que eu teria a obrigação de eleger alguém que tenha feito história no Palmeiras. Ao que eu discordo, pois nenhum dos craques palestrinos das últimas décadas foi maior que Romário. Marcos, Evair, Edmundo, Rivaldo, Djalminha, Sampaio, Valdivia: nenhum deles chegou perto do que foi Romário.

Romário é o maior jogador que eu vi. Foram muitas vezes, por sorte, e ainda no auge. Pelo Vasco, pelo Flamengo, pelo Fluminense, até pela seleção (no seu jogo de despedida, e só por isso eu fui). Quase sempre contra o Palmeiras, mas não só. Não tenho a contabilidade de jogos, mas sei dizer que, no estádio, tive o privilégio de viver 23 gols do Baixinho.

A maldade de alguns amigos criou boatos injustificados, como o de que, em alguns jogos entre Palmeiras e Vasco, eu teria torcido, já com o placar assegurado a nosso favor, por um gol do camisa 11. Não procede, mas Romário em campo era sinônimo de atenção dividida: de tempos em tempos, meu olhar se perdia lá no nosso campo de defesa, à espreita da movimentação de Romário. Era uma relação de medo e admiração, em doses invariavelmente iguais.

Foi um privilégio vê-lo em campo. O maior de todos.

Está dada a resposta, mas sinto que é necessário seguir adiante para esgotar o raciocínio. Eu falei acima em medo, e preciso agora fazer uma confissão. Medo é o maior sinal de respeito que um torcedor pode ter em relação a um jogador adversário. E só é possível sentir medo de alguém que representa ameaça. Assim sendo, medo seria o melhor critério para definir a qualidade de um jogador que não defende o nosso time.

Ou quase, já que eu tive medo de sujeitos como Marcelo Ramos ou Fábio Jr., que não eram necessariamente craques, mas que construíram suas carreiras à base de muitos gols no Palmeiras. Ao menos contra o meu time, portanto, estes dois foram jogadores respeitáveis. Tanto é assim que o medo que sentíamos os trouxe para curtas e decepcionantes temporadas no Palestra.

Medo também foi o que levou o Palmeiras a buscar Felipão, Arce e Paulo Nunes no Grêmio. Mas qualquer medo traz junto um tanto de respeito, e, no caso desses três, o tempo se encarregou de transformá-los em figuras importantes da história alviverde.

O medo, cabe dizer, inexiste diante do ódio. O ódio é algo totalmente diferente, e acaba por suplantar qualquer possibilidade de medo. O ódio implica na necessidade de confronto; não há espaço para mais nada a não ser o desejo de aniquilar o inimigo. É o que acontece com qualquer um que vista a suja camisa do Jd. Leonor. Não tenho medo de nenhum deles. Nunca tive. Tenho ódio. Um ódio mortal. O medo inexiste; não há medo sem respeito.

E aí, para finalizar, chegamos à confissão. A verdade é que eu nunca senti tanto medo de um adversário como de Marcelinho. Se este sentimento era por vezes camuflado por um ódio artificial, o tempo e a defesa de Marcos em 2000 se encarregaram de consolidar o medo que Marcelinho despertava em nossa torcida.

Discordam? Pois que me desminta aqui o palestrino que não se assustava a cada cobrança de falta do camisa 7 dos gambás. Que me desminta aquele que nunca se benzeu e pediu a ajuda dos céus a cada vez que um rival era derrubado na entrada da nossa área. Que me desminta quem nunca fez o sinal da cruz a cada escanteio cobrado da direita (ou da esquerda, tanto faz).

Marcelinho é um caso típico de jogador que desperta no adversário tanto medo que ele, o torcedor, apela para um mecanismo de defesa que transforma o medo em ódio. Mas há o respeito também, e é isso o que fica. Acreditem.

Tá, podem me xingar. Confesso que agora, ao terminar de escrever, percebo que o texto ficou um tanto quanto confuso. Não faz sentido começar com Messi, passar por Romário e chegar a Marcelinho. Temos aí um raciocínio torto, mas é que eu cresci em estádios de futebol e não vou me esquecer nunca do medo que eu sentia naquelas frias noites de Libertadores a cada vez que o 7 dos gambás vinha cobrar uma falta. A verdade é que esse texto parece ser um tributo a cada uma daquelas noites passadas no cimento do estádio do Jd. Leonor. Mais até: é um tributo ao meu eu torcedor daqueles anos gloriosos. O que temos aqui é um tributo ao medo que se transformou em felicidade.

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"Febre de bola", página 103:

"Às vezes tomo consciência, entre meus amigos torcedores do Arsenal, de uma rivalidade sutil, mas perceptível: ninguém gosta que lhe seja contado algo que não sabia sobre o clube - a contusão de um dos reservas, digamos, ou uma alteração iminente no desenho das camisas, algo como crucial como isso - por um dos outros."

22 março 2010

Tudo na mesma

Perdemos para um pequeno em casa. Virou rotina. Como virou rotina perder não por 0-1 ou 1-2, buscando o empate até o último minuto, mas sim de maneira mais contudente, por vezes inapelável. O 0-2 de sábado se equipara aos imediatamente anteriores 1-3 e 1-4, ao menos nos números, mas não na forma como se deu o resultado. Perdemos para um pequeno mesmo tendo vencido com autoridade dois clássicos complicados em rodadas anteriores (2-0 nos bichas e 4-3 nos moleques que não chegarão a lugar algum). Sentimos o amargo sabor da derrota em casa mesmo depois de toda a pressão exercida na etapa inicial, e assim foi porque parece que estamos condenados a assistir seguidamente ao mesmo filme, ano após ano. É de se pesquisar, por sinal, mas me atrevo a dizer que nunca antes tínhamos perdido três jogos no Palestra em uma única edição de Campeonato Paulista. Fica uma ponta de vergonha: nos anos 90, as derrotas caseiras durante toda a temporada dificilmente chegavam a esse número. Agora, em março ainda, caminhamos firmes para uma marca vexatória. Tudo como antes, já desde a década anterior. Inclusive do lado de fora, com 17 mil se dispondo a pagar ingresso para ver um time ser eliminado tão precocemente. 17 mil pagantes! O dobro do observado no dia seguinte no Jd. Leonor. Por lá, a massa de simpatizantes alienados não aguentaria nem 10% de tudo por que já passamos. Questão de alma. De resto, continua tudo na mesma: mais uma eliminação na nossa conta e em breve estaremos entregues a novas ilusões.

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"Febre de bola", página 228:

"Dezoito anos, todos esquecidos num só segundo."

18 março 2010

Fugindo do debate

Foi aprovada alguns dias atrás – em segunda e definitiva votação na Câmara Municipal – a lei que proíbe a realização de jogos de futebol no obsceno horário das 21h50 nesta grandiosa e complexa metrópole. Kassab, o prefeito-censor, teria de sancioná-la para que se fizesse justiça a alguns milhões de interessados. Teria, poderia e deveria. Mas isso não vai acontecer: contra o interesse coletivo desses tais milhões (entre os quais eu e qualquer um de vocês que me leem), temos a oposição interesseira de uma única organização, a mais maléfica que poderia haver em se tratando de futebol brasileiro. Refiro-me, é evidente, às Organizações Globo.

A pergunta que se coloca é: desde que surgiu o projeto de lei, há meses, houve algum pronunciamento por parte da emissora câncer, interessada direta no assunto? À resposta: Não! É bastante curioso se levarmos em conta que, em um Estado de direito como o nosso, pessoas, entidades ou grupos econômicos que se sentem prejudicados por um projeto de lei tendem a fazer uso dos espaços de debate para apresentar argumentos e tentar, via opinião pública, demonstrar os equívocos no que está sendo proposto.

(Até a indústria do tabaco, quando da aprovação da lei anti-fumo em SP, se prontificou a entrar no debate, vejam só!)

Cabe então questionar: Globo, quais são seus argumentos? Afinal, o que justifica a realização de jogos às 21h50? O que faz disso algo necessário? Existe algo que não a sua cretina e obsoleta grade de programação? Algo que não sejam os seus programas retardantes e alienados, as suas novelas e reality shows imbecilizantes? Existe algo além disso, Rede Globo de merda?

É evidente que não. Se houvesse algum argumento, por menor que fosse, a justificar o futebol "depois da novela" (notem que o horário nunca é divulgado nos anúncios pré-jogo), ele teria sido colocado em debate. Não foi. Não houve debate. É uma batalha em que os argumentos proliferam de um lado, à exata proporção dos interessados na lei, e inexistem do outro.

Sem argumentos, a Globo não se posiciona (ao menos não pelos meios corretos). Fica calada, como se nada estivesse acontecendo. Age nos bastidores, na surdina, por baixo dos panos, na politicagem suja. Aposta no poderio financeiro, no endividamento dos clubes, na relação promíscua com dona CBF e seu Ricardo Teixeira. E, como no caso de notinha safada publicada na FSP de hoje (e que será desmontada em breve), faz de Marco Polo Del Nero um capanga de seus interesses escusos. E fica tudo por isso mesmo.

São milhões de interessados na lei. Milhões. Em especial os torcedores, mas não só: também os jogadores, os profissionais do futebol, o policiamento, autoridades públicas, terceiros que trabalham em função do esporte, jornalistas, qualquer um que não esteja do lado da porra da família Marinho.

O torcedor quer jogo em horário decente. O torcedor, ao contrário do que pensa o nefasto Marco Polo Del Nero, é também um trabalhador. Precisa chegar em casa depois do jogo. Precisa de transporte público. Precisa ser respeitado. Precisa dormir. Precisa bater o cartão no dia seguinte e contribuir para o desenvolvimento do país. E não adianta dizer que ele pode optar por não ir. Não faz sentido: se o torcedor quer ir ao estádio, ele tem esse direito e precisa ser incentivado. E mesmo o simpatizante, que não costuma ir a estádios, tem o direito de poder dormir em um horário decente.

Os argumentos a favor da lei são inúmeros, a situação na verdade sequer precisa de um debate, tão clara que é. Mas a batalha tende a ser perdida novamente. Vai pesar o poderio financeiro e a articulação político-criminosa de Marcelo Campos Pinto, da família Marinho e de uma meia dúzia de filhos da puta engravatados.

O estádio como estúdio. Eles vão chegar lá.

***

Nenhum outro assunto, vocês já devem ter percebido, me irrita tanto quanto a interferência da emissora câncer nos horários do futebol no Brasil. A lei aprovada aqui em SP (e que tende a receber o veto do prefeito ou então ser submetida a alguma tramoia de nossos dirigentes) deveria ser apenas o prenúncio de um longo trabalho contra a emissora câncer. Pelo fim dos horários esdrúxulos, pelo fim do futebol na madrugada, pelo fim dos horários cretinos no final de semana, pelo fim da manipulação na tabela, pelo fim das alterações de última hora, pelo fim das adequações à grade de programação, pelo fim da alienação.

***

Espero que tenha ficado claro agora o porquê de agirmos com certa truculência para coibir a ingenuidade de torcedores que levam cartazes cretinos para o estádio querendo aparecer na emissora câncer. E eu só me orgulho de, lá no começo da década, ter colaborado para a expulsão daqueles imbecis da Globo que levavam televisões de papelão para filmar torcedores na arquibancada. E me orgulho por pertencer a uma torcida que já expulsou repórteres da Globo do estádio e que não permitiu que os negos do Profissão Repórter subissem na nossa arquibancada para fazer graça. Às vezes, só a truculência resolve.

***

"Febre de bola", página 234:

"Decisões do árbitro escandalosamente ruins: Prefiro que o Arsenal seja a vítima, e não o beneficiário, delas, desde que isso não nos custe a partida. A indignação é um ingrediente crucial da experiência futebolística perfeita; portanto, não posso concordar com os comentaristas que argumentam que a arbitragem é boa quando o árbitro não é notado (embora, como todo mundo, eu não goste que o jogo seja interrompido a cada poucos segundos). Prefiro notá-los, vaiá-los e sentir-me roubado por eles."

16 março 2010

Bolão do Brasileiro

Não, não se trata de acertar os vencedores e os resultados de cada rodada do Brasileiro que está por vir. Isso tudo pouco importa. O bolão deste blog, seguindo o seu espírito outsider, é diferente. Buscando imprimir um pouco de humor ao que existe de pior no futebol brasileiro, este blog vai convidar os seus leitores a palpitar sobre as mudanças que serão apresentadas "para adequação à grade de transmissão da emissora de TV". Serão muitas, é evidente, causando transtornos a torcedores que se programam desde muito cedo para ver seu time em campo.

Vou pensar depois se existe alguma regra possível para um bolão assim tão inusitado, mas fica aí a ideia. De início, para facilitar a vida dos palestrinos, segue a relação dos jogos do Palmeiras, da primeira à última rodada:

BRASILEIRO/2010

08.05 sáb. 18h30 Palmeiras x Vitória/BA – Palestra
16.05 dom. 18h30 Vasco/RJ x Palmeiras – São Januário
22.05 sáb. 18h30 Palmeiras x Grêmio/RS – Palestra
26.05 qua. 21h SPFW/SP x Palmeiras – Jd. Leonor
29.05 sáb. 18h30 Palmeiras x Barueri/SP – Palestra
02.06 qua. 21h50 Palmeiras x Flamengo/RJ – Palestra
06.06 dom. 18h30 Internacional/RS x Palmeiras – Beira-Rio
15.07 qui. 21h Palmeiras x Santos/SP – Palestra
18.07 dom. 16h Avaí/SC x Palmeiras – Ressacada
22.07 qui. 21h Palmeiras x Botafogo/RJ – Palestra
25.07 dom. 18h30 Ceará/CE x Palmeiras – Castelão
01.08 dom. 16h Palmeiras x SCCP/SP – Pacaembu
08.08 dom. 16h Goiás/GO x Palmeiras – Serra Dourada
14.08 sáb. 18h30 Palmeiras x Atlético/PR – Palestra
22.08 dom. 16h Guarani/SP x Palmeiras – Brinco de Ouro
26.08 qui. 21h Palmeiras x Atlético/GO – Palestra
29.08 dom. 16h Atlético/MG x Palmeiras – Mineirão
02.09 qui. 21h Fluminense/RJ x Palmeiras – Maracanã
05.09 dom. 16h Palmeiras x Cruzeiro/MG – Palestra

08.09 qua. Vitória/BA x Palmeiras – Barradão
12.09 dom. Palmeiras x Vasco/RJ – Palestra
15.09 qua. Grêmio/RS x Palmeiras – Olímpico
19.09 dom. Palmeiras x SPFW/SP – Palestra
22.09 qua. Prudente/SP x Palmeiras – Prudentão
26.09 dom. Flamengo/RJ x Palmeiras – Maracanã
29.09 qua. Palmeiras x Internacional/RS – Palestra
03.10 dom. Santos/SP x Palmeiras – Vila Belmiro
06.10 qua. Palmeiras x Avaí/SC – Palestra
10.10 dom. Botafogo/RJ x Palmeiras – Engenhão
17.10 dom. Palmeiras x Ceará/CE – Palestra
24.10 dom. SCCP/SP x Palmeiras – Pacaembu
31.10 dom. Palmeiras x Goiás/GO – Palestra
03.11 qua. Atlético/PR x Palmeiras – Arena da Baixada
07.11 dom. Palmeiras x Guarani/SP – Palestra
14.11 dom. Atlético/GO x Palmeiras – Serra Dourada
21.11 dom. Palmeiras x Atlético/MG – Palestra
28.11 dom. Palmeiras x Fluminense/RJ – Palestra
05.12 dom. Cruzeiro/MG x Palmeiras – Mineirão

***

Ao final, observações pertinentes:

1. Tudo isso que está acima não deve ser levado a sério. Porque novelas, BBBs e cretinices de ordem diversa podem ocasionar mudanças significativas na tabela. Portanto, todo esse meu trabalho não tem qualquer valor. Tudo deve vir acompanhado de um aviso bem singelo: "A princípio é isso, mas podemos mudar tudo a qualquer hora. Fodam-se todos vocês, torcedores!"

2. Jogaremos em casa (contra o novato Atlético/GO) no dia 26 de agosto, aniversário do Palmeiras. A princípio.

3. O Grêmio Prudente (pausa para uma demonstração explícita de ódio) aparece na tabela de dona CBF ainda como Barueri. A princípio.

4. Nota-se a prevalência de nossos jogos em casa (ao menos no primeiro turno) nos sábados às 18h30. O domingo é raridade. A princípio.

5. Mataram o horário de 20h30 durante a semana. A princípio.

6. A tabela do segundo turno ainda não foi desmembrada. Portanto, tudo pode mudar. A princípio.

7. Domingo, 18h30, fora de casa. Temos vários jogos nesse horário esdrúxulo: no Rio, em Porto Alegre, em Fortaleza. A princípio.

8. A princípio, é o que temos. Mas Marcelo Campos Pinto e Virgílio Elísio prometem um ano cheio de mudanças.

***

"Febre de bola", páginas 235 e 236:

"Algum tipo de "incidente vergonhoso" (vulgo "bagunça", vulgo "confusão", vulgo "baderna"): Aqui já estamos entrando em território moral duvidoso - é óbvio que jogadores têm a responsabilidade de não provocar uma multidão altamente inflamável. Uma coisa é uma briga entre o Coventry e o Wimbledom, numa tarde úmida de novembro diante de 10 mil espectadores entorpecidos, mas uma briga entre os jogadores do Celtic e do Rangers, dado o rancor sectário quase incontrolável nas arquibancadas, é totalmente outra. Ainda assim há que concluir, infelizmente e com um grau considerável de tristeza olímpica, que não há nada como uma pancadaria para avivar um jogo de outra forma entediante. Os efeitos colaterais são invariavelmente benéficos - os jogadores e as torcidas se empolgam mais, a trama se adensa, o pulso se acelera - e se, em consequência disso a partida não degenerar e virar uma espécie de acertos de contas rancoroso, tais brigas me parecem uma característica bastante desejável, como um terraço na cobertura ou uma lareira. Se eu fosse jornalista esportivo ou representante das autoridades futebolísticas, sem dúvida comprimiria os lábios, fingiria reprovação, insistiria que os transgressores fossem levados à justiça - o bate-boca e a catimba, tal como as drogas leves, não teriam graça nenhuma se fossem sancionados oficialmente. Por sorte, porém, não tenho esse tipo de responsabilidade: sou um torcedor, sem a menor obrigação de me ater a moralidade alguma."

15 março 2010

Renascimento?

Para reflexão:

03.10.2009, domingo à tarde, Vila Belmiro
Santos/SP 1 x 3 Palmeiras
Com a vitória contundente no clássico, o líder Palmeiras abre uma vantagem de oito pontos sobre o vice-líder. Impossível conter a euforia. Na saída da Vila Belmiro, reunidos em um boteco ali em Santos mesmo, comemorávamos o que parecia ser a confirmação de um título há muito esperado. Ainda hoje, lembro da ordem dos abraços em cada um dos amigos que por ali chegavam. "É campeão, porra!". Não, ninguém deixou escapar essa frase. A cautela nos precede. Mas era o que todos pensávamos. O que não sabíamos é que o Palmeiras-2009 tinha feito sua despedida naquela tarde praiana. Quatro dias depois, empate em casa com o Avaí. O que veio a seguir é exatamente o que nos levou ao cenário depressivo que antecipou o mais recente duelo no amontoado de laje.

14.03.2010, domingo à tarde, Vila Belmiro
Santos/SP 3 x 4 Palmeiras
Superação, redenção, a camisa que entra em campo quando desafiada, a história que faz moleques se portarem como moleques, os guerreiros que renascem na hora da batalha, o grande time que coloca seu rival no devido lugar, o Palmeiras como Palmeiras.
Foi tudo o que vimos ontem à tarde.

O resto é com o tempo...

***

"Febre de bola", página 237:

"Mas novamente trata-se daquele negócio de estar no centro do mundo: depois do jogo fomos para casa sabendo que aquilo que tínhamos visto, ao vivo, fora o momento esportivo mais significativo daquela tarde, um momento que seria debatido por semanas, meses, que chegaria ao noticiário, e sobre o qual todos nos perguntariam no trabalho segunda-feira de manhã. De modo que no final é preciso reconhecer o privilégio que foi estar ali e ver todos aqueles homens adultos bancando os idiotas na frente de 35 mil pessoas; eu não teria perdido aquilo por nada desse mundo."

14 março 2010

Em 4 tempos

1. Porque time grande é time grande!

2. Porque moleque a gente trata como moleque!

3. Porque aqui é Palmeiras!

CHUPA, SANTOS DE MERDA!

***
"Febre de bola", páginas 212 e 213:

"Familiares e amigos sabem, após longos anos de experiência frustrante, que a tabela de compromissos sempre tem a última palavra em qualquer combinação; compreendem, ou pelo menos aceitam, que batizados, casamentos ou reuniões de qualquer tipo, que em outras famílias teriam precedência inquestionável, só podem ser marcados após consulta prévia. De modo que o futebol é considerado uma certa deficiência que tem de ser levada em conta. Se eu vivesse numa cadeira de rodas, ninguém do meu círculo íntimo organizaria nada num apartamento de cobertura; portanto, por que alguém planejaria algo para as tardes de sábado no inverno?

(...)

De modo que já houve convites de casamento que eu tive - com relutância, mas de forma inevitável - de recusar, embora sempre tomando o cuidado de providenciar uma desculpa socialmente aceitável que envolvesse problemas familiares ou dificuldades no trabalho; pois "Jogo em casa contra o Sheffield United" é considerada uma explicação inadequada em situações como essas.

(...)

E além disso há as imprevisíveis decisões de taça, as partidas remarcadas no meio da semana e os jogos transferidos de sábado para domingo em cima da hora a fim de se adequarem aos horários das televisões, de modo que tenho que recusar convites que conflitem com compromissos em potencial, bem como aqueles que conflitem com compromissos reais."

09 março 2010

Pobre futebol

Confesso agora aos meus poucos leitores e às ainda mais escassas leitoras, tão pacientes elas quanto eles, que nunca tive tanto desgosto com o futebol. Isso, peço que me entendam, tem muito pouco a ver com os maus resultados colhidos pelo Palmeiras dentro de campo. Vitórias ou derrotas têm o poder de afetar meu humor momentaneamente, mas não é tanto nos números (e mesmo nos títulos) que reside o meu prazer pelo jogo. Assim sendo, pouco importaria se tivéssemos perdido no ano passado o Campeonato Brasileiro mais ganho da história tampouco os seguidos tropeços desta temporada atual. O problema todo é que eu já não suporto mais conviver com as seguidas agressões contra o futebol.

Tive o cuidado de examinar minuciosamente os 35 posts publicados neste blog em 2010. Deles todos, 28 têm um tom extremamente crítico, nem tanto devido a placares adversos, mas normalmente por conta de pessoas, atitudes ou declarações que atentam contra o futebol e a sua cultura. Por sinal, todos os últimos 10 textos seguem essa linha. Esses 28 correspondem, vejam os senhores e as senhoritas, a 80% do total deste ano. Os sete restantes seguem a linha da empolgação, do entusiasmo, do amor pelo jogo ou da comemoração por vitórias efêmeras.

Feito isso, percebi que todos os textos pendentes, rabiscados na minha agenda, esboçados em uma folha de papel solta ou rascunhados no celular, têm o mesmo tom crítico e contestador, e isso, cabe dizer, não é culpa minha.

Foi então que corri até o texto publicado em 26 de janeiro, quando relatei um pouco da minha insatisfação com os rumos tomados por esta página. Eis aqui. Percebi então que a coisa só se agravou desde então, e que os seguidos atentados contra a cultura do jogo parecem se intensificar a cada dia, quase como um rolo compressor que procura dar fim ao futebol tal como ele é.

É isso que explica o meu esgotamento atual. Cansei de abrir o jornal todos os dias logo cedo e me deparar sempre com notícias ruins para quem gosta de futebol. Percebam, caros amigos, conhecidos, desafetos, inimigos ou indiferentes: só o que temos ultimamente nas páginas esportivas são atentados clamorosos contra o esporte.

Se você é uma pessoa normal, que apenas lê a notícia e, digamos, fica revoltado, solta um palavrão e logo passa para a matéria seguinte, sou obrigado a admitir a minha inveja. Acontece que eu não posso fazer o mesmo. Porque, afinal de contas, mantenho essa página já há sete anos, ela é parte importante da minha vida e eu preciso dar vazão ao que se passa na minha mente. É então que a leitura de qualquer nota ou notícia vem acompanhada de todo um raciocínio sobre o que escrever e como revidar o que está sendo dito. E às vezes, devo confessar, eu me sinto falando sozinho.

São os horários ridículos, as tabelas de campeonatos jogadas no lixo (e aquelas que demoram a sair), as inversões de mando, os clubes caipiras que vendem seus mandos para prefeituras oportunistas, os políticos que tentam aparecer às custas do esporte (e os que querem ser políticos um dia), os dirigentes que só sabem dizer (e fazer) besteiras, os covardes diretores do Palmeiras, os ingressos a preços extorsivos, os jogos de quinta às 17h, os palhaços do apito que fazem de tudo para aparecer.

É o promotor que só pensa nas eleições, é o Batalhão de Choque que não faz o seu trabalho, é o procurador que não tem o que fazer, é o presidente de federação que ofende o torcedor, é a diretoria que suja a história do Palmeiras com uma fuga de campo, é a completa falta de organização em tudo, é a chuva 'superestimada', é o programa de relacionamento do clube com o consumidor, é o Setor Visa, é a merda do time que muda de nome no meio do campeonato depois de abandonar a sua cidade, é a maldita Presidente Prudente/MS que insiste em existir, é a porra de Barueri.

São os jornalistas hipócritas, os colunistas que defendem interesses escusos, os jornais a serviço de um único clube, as mentiras deslavadas, as matérias encomendadas, os falsos profetas da moral e dos bons costumes, os idiotas do fair play, os comentaristas de estúdio, os defensores do sofá, os elitistas, os empresários e marqueteiros que só veem cifrões no horizonte, as empresas que só sabem explorar o jogo, os coxinhas que esqueceram de estudar e só sabem usar de violência.

É a TV que faz força para jogar o futebol cada mais próximo da madrugada, é o torcedor que paga o preço pela alienação do povão, é a novela roubando o nosso sono, é o batalhão de vagabundos de terno tentando derrubar o PL que proíbe jogos na calada da noite, é a lei que veta palavrões nos estádios da Paraíba, é o Cirque du Soleil, é o padrão Fifa, é a seleção brasileira que manda seus jogos em Londres, é o tribunal que pune o próprio futebol, é o bizines, é a Copa-2014, é a politicagem rolando solta, é o Maracanã sendo reformado sem motivo.

É, em resumo, o tal do futebol moderno.
E eu cansei. Cansei de ver meu amor pelo futebol ser posto à prova por Del Neros, Castilhos, Schmitts, Cipullos, Marinhos, Teixeiras, JJs, Lecos, Casares, Alaores, anões de jardim e demais criaturas nefastas. Cansei dessa corja maldita. Quero preservar o futebol tal como ele é. Mesmo que seja só dentro de mim.

***

Tudo isso para pedir que não estranhem se este blog ficar sem atualização pelos próximos dias. Porque aqui se valoriza o futebol com alma, e isso é tudo o que não temos nesses tempos tão, como é que eles gostam?, modernos. Pobre futebol...

***

Para compensar, fiquemos com um momento inspirado de Nick Hornby. Com vocês, “Febre de bola”, páginas 186 e 187:

“Uma coisa que tenho certeza acerca do ato de torcer é o seguinte: não se trata de um prazer vicário, apesar de todas as aparências indicarem o contrário, e quem diz que prefere jogar a assistir não percebe o principal. O futebol é um contexto no qual assistir se torna jogar – não no sentido aeróbico, porque assistir a um jogo até não poder mais, beber no final e comer batata frita a caminho de casa são coisas que provavelmente não lhe farão muito bem na receita de Jane Fonda, da mesma maneira que ofegar para cima e para baixo num gramado supostamente faz. Mas quando há alguma espécie de triunfo, o prazer não é irradiado dos jogadores para fora até nos atingir no fundo da arquibancada em forma pálida e reduzida; nosso prazer não é uma versão aguada do prazer do time, embora sejam eles que marquem os gols e subam os degraus de Wembley para cumprimentar a princesa Diana. A felicidade que demonstramos em ocasiões como essa não é uma celebração de boa sorte dos outros, mas da nossa própria; e quando ocorre uma derrota desastrosa, a tristeza que nos engolfa é, na realidade, autopiedade, e quem quiser compreender como o futebol é encarado tem de perceber isso acima de tudo. Os jogadores são meros representantes nossos, escolhidos pelo técnico em vez de eleito por nós, mas ainda assim representantes nossos; e às vezes, se você olhar com atenção, conseguirá até ver as varetas que os unem e as maçanetas laterais que nos permitem movimentá-los. Eu faço parte do clube, assim como o clube faz parte de mim; e digo isso com plena consciência de que o clube me explora, desconsidera minhas opiniões e me trata mal em várias ocasiões, de modo que meu sentimento de ligação orgânica não se baseia numa compreensão equivocada, confusa e sentimental dos mecanismos do futebol profissional. Essa vitória em Wembley pertenceu a mim tão completamente quanto pertenceu a Charlie Nicholas ou a George Graham (será que Nicholas, que foi dispensado por Graham logo no início da temporada seguinte, e depois vendido, recorda aquela tarde com tanto carinho?), e me esforcei por ela tanto quanto eles. A única diferença entre mim e eles é que eu já investi mais horas, mais anos, mais décadas do que eles, de modo que compreendi melhor aquela tarde e tive uma percepção mais agradável de por que o sol ainda brilha quando lembro dela.”

07 março 2010

Vergonha

Não é preciso voltar muito no tempo; em 2010 mesmo, chuvas mais fortes não impediram a realização de jogos no Palestra Itália. Chuvas que caíram pouco antes ou mesmo durante o jogo (e não até cinco horas antes). O adiamento solicitado ontem pelo Palmeiras é, portanto, uma vergonha sem precedentes, já que deixa espaço para uma série de interpretações sobre o que levou a esta decisão infeliz.

Nem quero pensar no que efetivamente se passou pela cabeça de nossos dirigentes (?), mas fato é que não faz sentido um adiamento ser pensado (ou seria tramado?) mais de seis horas antes do jogo - e é no mínimo emblemático que o antagonista de tudo tenha sido o senhor Gilberto Cipullo, em contato com Marco Polo Del Nero, o nefasto.

O sol que brilhou no final da tarde em São Paulo e as imagens do gramado em perfeitas condições de jogo a partir das 15h serviram apenas para evidenciar que existe algo de muito errado nessa história toda. Por sinal, a cada vez que leio as notícias e vejo tantas informações desencontradas, a certeza se fortalece.

O que se desenrolou a partir da fuga de campo (ou do encontro com a torcida?), diga-se de passagem, apenas amplia o constrangimento que sentimos agora os palmeirenses: veto dos coxinhas, show de rock no outro final de semana e um time desalojado indo direto para Barueri, que ultimamente parece ser a solução para todos os problemas do futebol paulista - menos para o time da própria cidade, que fugiu para o Mato Grosso do Sul.

Se, afinal, por conta da covardia da nossa diretoria, da incompetência da PM e da visita de Axl Rose, não poderia o jogo acontecer no Palestra, por que o Pacaembu é simplesmente desconsiderado? Por que cazzo a fixação por Barueri? Por que submeter o palestrino a um jogo em outra cidade em plena segunda-feira à noite?

Parece não haver limites para a incompetência da nossa diretoria. E o que aconteceu ontem, que eu encaro como uma fuga de campo, é motivo de vergonha. A nossa história não merecia um capítulo desses. Vergonha!

***

Senhores diretores,
Obrigado pelo presente!

***

"Febre de bola", página 189:

"Meus amigos que não curtem futebol e meus familiares nunca conheceram alguém mais louco do que eu; na realidade, estão convencidos de que sou tão obcecado quanto é possível ser."

05 março 2010

Guerra declarada

A submissão aos interesses nefastos da emissora câncer do futebol brasileiro produz situações como a de ontem, no Pacaembu: jogo às 17h de uma quinta-feira útil, torcedores chegando na hora do jogo, sistema parado, bilheterias que não funcionam e lá vêm os bravos e valorosos homens do 2º Batalhão de Choque da Polícia Militar a distribuir porradas por entre a multidão.

O roteiro não tem lá muitas novidades (é bem previsível até), mas este blog insiste em perguntar: os caras marcaram o jogo para quinta às 17h, e a culpa é do torcedor? Fizeram isso para atender à conveniência de uma meia dúzia que mora fora do Brasil e a culpa é do sujeito que arrisca até perder o emprego só para ver o seu time jogar em um horário assim tão cretino? É isso?

Com a palavra, os “organizadores” do espetáculo. Nos jornais de hoje, eles tentam se defender com um argumento patético: “a torcida chegou em cima da hora”.

Que coisa, não? Que falta de organização, a dos torcedores?

Ainda os “organizadores”, que se defendem com a alegação de que a bilheteria estava aberta desde as 9h da manhã.

9h da manhã? PQP! Por que esses caras não conseguem entender que as pessoas normais costumam trabalhar entre 9h e, sei lá, 17h? T-R-A-B-A-L-H-A-R, sabem? É tão difícil assim?

É, deve ser culpa do torcedor...

Chegamos então à figura de Marco Polo Del Nero, um capacho da emissora câncer, que se prontifica a tomar a dianteira na batalha contra o projeto de lei que pretende evitar partidas de futebol disputadas em horários obscenos.

Eis que Del Nero apresentou um estudo mentiroso (que este blog, com o devido tempo, vai desmontar). O texto está na Folha de S.Paulo de hoje, e eu trago aos senhores pequenos trechos da matéria, que constitui uma declaração de guerra ao torcedor:

1. Del Nero manipula números para construir o argumento de que o torcedor prefere jogos “depois da novela”. Nas palavras do próprio: “Em todos os critérios comparados, o horário das 22h é o melhor. Se não tivesse a Rede Globo, eu defenderia do mesmo jeito, porque é o melhor para os clubes”. A desconstrução da matemática picareta do presidente da FPF se dará com o devido tempo, mas a simples tentativa de atribuir ao torcedor essa preferência constitui uma grave ofensa.

2. Ele ameaça, se aprovado o projeto de lei, tirar os jogos da capital paulista, em claro desacordo com o direito de os clubes exercerem seus mandos onde bem entenderem.

3. Vamos ao trecho mais revoltante da matéria:
“Para o presidente da FPF, o Paulista é feito para públicos distintos. E o trabalhador que tem de levantar cedo no dia seguinte, diz Del Nero, deve evitar ir aos jogos das 21h50."O Paulista é 100% televisionado. Ele pode acompanhar a partida de casa", diz o cartola, sugerindo as partidas transmitidas pela Globo e pelo pay- -per-view. "A maioria dos jogos é exibida ao vivo. Agora, não dá para transmitir tudo no mesmo horário", afirma Del Nero.”

Foi longe demais, Del Nero!

***

"Febre de bola", página 53:

"À chegada, éramos recebidos por centenas e centenas de policiais, que aí nos escoltavam ao estádio por uma rota tortuosa, afastada do centro da cidade; era durante essas caminhadas que eu dava rédeas às minhas fantasias de hooligan urbano. Sentia-me totalmente seguro, protegido não só pela lei como pelos demais torcedores e, portanto, juntava os urros da minha voz ainda esganiçada aos refrões ameaçadores dos outros."

04 março 2010

O fim da farsa

A farsa não se sustentou por muito tempo. Passadas duas semanas, a incompetência ficou exposta novamente, evidenciando uma vez mais a covardia que nos conduziu à situação atual. O que se percebe é que a derrota para o Santo André foi ainda pior do que a goleada sofrida para o São Caetano. O vexame não está tanto nos números, pois certos resultados podem decorrer de acidentes de percurso, mas sim no efeito cumulativo e na constatação de que o grupo que aí está levou o gigante Palmeiras a ser amplamente dominado em sua casa por um pequeno como Santo André - e poderia ser qualquer outra dessas tantas trolhas que poluem o Campeonato Paulista. Fato é que vimos, 3 mil e tantos abnegados, o pequeno visitante fazer o que bem quis no Palestra Itália, outrora uma fortaleza alviverde. Noite de tortura, espetáculo tenebroso, um gigante que se apequena. E já foram tantas as noites assim que já nos sentimos presos a uma preocupante rotina, como se aquilo tudo fosse inevitável. Até o horário, 21h50 da madrugada, parecia nos lembrar que a tragédia estava se repetindo. O que fica, mais que a vontade de protestar contra sabe-se lá quem, é a sensaçao de impotência, pois o que nos conduziu ao cenário atual é uma estrutura já há muito corroída.
Mas querem saber o que é pior?
É que sábado, diante do inexpressivo Sertãozinho, eu e outros tantos estaremos lá novamente, na mesma arquibancada, diante deste mesmo grupo fracassado e pagando os mesmos R$ 30 para mais um capítulo que envergonha a nossa história.

***

Demorei a escrever porque desde ontem, ao sair do Palestra, não sabia nem por onde começar. E porque a vida nos impõe certas situações que, penosas ou não, ao menos dependem de nossos próprios esforços. Ainda assim, por mais que eu pense e pese uma série de circunstâncias, não consigo ter o desprendimento necessário e algo me leva de volta para o mesmo lugar.

***

"Febre de bola", páginas 69 e 70:

"Aprendi certas coisas com o futebol. Muito do meu conhecimento de lugares na Grã-Bretanha e na Europa não vem da escola, mas de jogos fora de casa e das páginas de esportes, e o hooliganismo me deu ao mesmo tempo gosto pela sociologia e um certo grau de experiência com pesquisa prática. Aprendi o valor de investir tempo e dinheiro em coisas que eu não posso controlar, e de pertencer a uma comunidade com cujas aspirações me identifico de forma completa e acrítica."

03 março 2010

Tabela mutante

Daí que eu fui procurar no jornal a classificação do Campeonato Paulista para saber o que precisariam fazer os outros 19 times para rebaixar esta merda que atende(ia) pelo nome de Grêmio Barueri. Passei os olhos pela tabela e nada de encontrar o tal Barueri. Então eu olhei com mais calma e finalmente localizei, na 11º posição, o Prudente*, assim mesmo, acompanhado de um asterisco.

Prudente. Quer dizer que a merda já mudou de nome, é? E já contaminou a tabela de classificação e tudo mais?

Fui então ao site da FPF e constatei que o nome já foi alterado do início ao fim da tabela de jogos. E assim, meus caros, descobri que, em jogo válido pela segunda rodada, no dia 21 de janeiro, o Palmeiras empatou em dois gols com o Grêmio Prudente (?) e não mais contra o Barueri, como de fato aconteceu na ocasião.

Fomos roubados, lembram-se disso? Mas agora eu estou com uma dúvida existencial: contra quem se deu o roubo? Contra o Barueri? Ou contra o Prudente? Ou contra os dois?

No Brasil, a tabela é mutante, e isso já foi dito muitas vezes por este blog. Mas antes só mudavam os horários; agora, no Paulistão, os filhos da puta mudam até os nomes dos times. Porra, como é que pode um time começar o campeonato com um nome e terminar com outro? Como pode?

Boa, Del Nero!

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Do Painel FC de hoje:

Improviso. Quem acompanhou os treinamentos do agora Grêmio Prudente, ex-Barueri, afirma que os atletas treinam em campo de uma construtora de Presidente Prudente e tem usado como vestiário dois contêineres colocados ao lado do gramado.

Viva a modernidade! Viva o progresso!
Viva Presidente Prudente/MS!

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Por falar em tabela, eis que vamos jogar de novo numa quarta-feira às 21h50. Só falta chover de novo...

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“Febre de bola”, páginas 70 e 71:

"Isso – a perspectiva de morrer em plena temporada daquele jeito – me preocupa, mas é claro que com toda a probabilidade vou morrer em algum momento entre agosto e maio."
(...)
"Não quero morrer em plena temporada, mas por outro lado creio ser daqueles que ficariam felizes se suas cinzas fossem espalhadas sobre o gramado de Highbury. Seria bom poder ficar pelo estádio de alguma forma, vendo o time titular jogar num sábado e os reservas no outro; também gostaria de ter certeza que meus filhos e netos serão torcedores do Arsenal e que poderei assistir aos jogos com eles. Não parece uma maneira ruim de passar a eternidade, e certamente eu preferiria ser espalhado por cima da Arquibancada Leste do que ser despejado no Atlântico ou largado no topo de uma montanha."

Onde está o povo?

Manchete do caderno de esportes da Folha de S.Paulo: “Triunfo minimiza pressão popular por Ronaldinho”. É então que eu pergunto: que pressão? Mais até: que povo?

Aí a matéria, lá pelo quarto parágrafo, tenta justificar o título:
“A pressão popular pelo jogador foi quase inexistente. Apenar uma parcela ínfima dos brasileiros, maioria no Emirates Stadium, pediu a presença do jogador milanista, de forma breve, ao final da partida.”

Que tal discutirmos o conceito de “popularidade”? Não me refiro aqui ao sentido que se inclina para o lado de “celebridade”, mas para o sentido de “povo” mesmo. A pergunta que fica é: onde está o povo a que faz referência a matéria? De onde vem esse suposto clamor, minimizado ontem? No Emirates Stadium, como sugere o texto?

Onde está o povo, porra?

O povo não estaria no Pacaembu, no Maracanã, no Mineirão ou no Arruda? Não estaria em qualquer estádio brasileiro, de preferência sem os preços exorbitantes cobrados atualmente? Ou o povo está no Emirates Stadium mesmo? Que cazzo de povo é este?

Ou alguém por aqui, no Brasil, está preocupado com Ronaldinho, Robinho, Dunga ou qualquer dessas tranqueiras? Alguém está preocupado? (Não, não vale o Galvão Bueno.)

"Pressão popular" é algo que tivemos em 2002 com Romário. Ali o povo se pronunciou, pediu o Baixinho de volta, fez nascer um clamor 'popular' de fato. Não se vê nada disso nos dias de hoje por qualquer outro jogador. Aliás, não se vê qualquer tipo de mobilização, até porque o povo tem o costume de trabalhar enquanto a seleção brasileira manda seus jogos em Londres.

E eu bem sei o quanto meu primo, morando por lá há seis anos, está preocupado com essa merda de seleção...

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A bem da verdade, eu não me importo nada com essa pataquada toda. Nem sabia que tinha jogo ontem, só vi o resultado hoje cedo e quero mais é que se fodam todos os que estão vestindo essa camisa.

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Por falar em camisa, que merda essa Nike, não?
adidas é adidas, é só isso que eu tenho a dizer.

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Para encerrar tão desimportante assunto, deixo aqui a pergunta que já fiz ontem no Twitter:
Que diferença existe entre o Brasil mandar seus jogos em Londres e o Barueri mandar seus jogos em Presidente Prudente/MS?

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“Febre de bola”, página 62:

"Mas a verdade nua e crua é que o clube é mais importante para nós, torcedores, do que para eles. Onde estavam eles vinte anos atrás? Onde estarão daqui a dois anos alguns deles? (Em Villa Park ou Old Trafford, correndo em direção ao gol do Arsenal com a bola nos pés, é lá que eles estarão)."

01 março 2010

Até na coluna social?

Consta do post de ontem o desafio lançado pelo nosso amigo promotor, aquele que se faz de xerife do futebol paulista enquanto não chegam as eleições de 2012:

"Eu não tenho medo de que me batam. Agora eu quero ver bater na minha frente"

Falou bonito, não? Acontece que este blog já comprou a briga muito tempo atrás. Já faz mais de quatro anos que o promotor é tido por aqui como, digamos, um desafeto. E certas brigas ficam mais fáceis quando o próprio oponente se encarrega de se boicotar. Foi o que fez o midiático promotor, que resolveu pular das páginas esportivas logo para uma coluna social.

Faz sentido, pois também é possível angariar votos de quem lê colunas sociais. Vejamos, pois, o que consta de sua aparição na Ilustrada de hoje, mais especificamente na página da colunista Mônica Bergamo:

Sem babá
O promotor Paulo Castilho, do Juizado Especial Criminal, pedirá o fim da escolta às torcidas organizadas em dias de jogos. "Chega de ficar pajeando delinquente. Nada justifica que eles tenham escolta maior que a do governador", diz ele, que, no ano passado, declarou que suspender o acompanhamento dos torcedores era "inimaginável". O promotor tenta marcar reunião para esta semana com o secretário da Segurança Pública e os chefes das polícias civil e militar.


Ficou mais fácil assim. Nem precisei me dar ao trabalho de desconstruir nada. Boa noite, promotor.

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"Febre de bola", página 26:

"Pela primeira vez, de repente, tomei consciência de todos os torcedores do Swindon sentados ao nosso redor com aqueles sotaques horrorosos do oeste, aquela alegria inocentemente absurda, aquela incredulidade delirante. Eu nunca cruzara com torcedores adversários antes, e senti um asco deles que nunca sentira por estranhos."

E isso me soa tão familiar...